05 janeiro 2018

Livro de cabeceira

Autor desconhecido 

Um livro de cabeceira é revelador do dono da cabeceira. Fofoqueiros contam que todas as candidatas a concursos de beleza leem “O pequeno príncipe”, o que me deixa na dúvida se se trata da “síndrome das misses” ou é uma afirmação maldosa. Não é por outra razão que certas personalidades decoram títulos e sinopses de livros para poderem enfrentar entrevistadores.
Eu estava no palácio do Jaburu, naquela entrada cheia de árvores na qual o Gilmar Mendes foi fotografado indo para uma reunião, fora da agenda, com Temer, às vésperas de um dos julgamentos do presidente. Não sei como, mas consegui passar pela barreira dos seguranças que estavam na entrada. Eles dirigiam o olhar na minha direção e não me viam. Naturalmente, pensei que eu havia morrido e quem estava ali era minha alma. Contudo, não me lembrava de nenhuma situação próxima da morte, assim como não sabia o porquê de estar no Jaburu. Sentia-me do jeito que sempre me senti.
Decidi aproveitar e conhecer o palácio. Fui andando e me deparei com um salão no qual estavam figuras frequentemente vistas na televisão, todos eles políticos da base de governo do Temer. Ele próprio estava lá cercado de apoiadores. Não testei, mas, a estas alturas, estava seguro que era invisível. Se chegasse perto, o que eu faria com declarações estarrecedoras que ouvisse? Não teria provas para poder denunciar.
Na minha furtiva andança, cheguei à biblioteca do palácio. Notei que os livros devem ter sido comprados a metro por um funcionário que priorizava livros encadernados de cores variadas. Fiquei tentado a abrir as gavetas da bonita mesa central, mas me contive. Afinal de contas, não sou espião. Deveria acessar documentos comprometedores? Quem me escalou para tal tarefa? Depois me tranquilizei, porque o medo da Lava Jato já deve ter levado muitos políticos a “higienizarem” suas gavetas.
Passeei por todo o palácio. Já cansado, vi ao fim de um corredor uma porta semiaberta. Olhei lá dentro e não tinha ninguém. Era um quarto de dormir com uma cama de casal de respeito, ou melhor, uma cama de respeito de casal. Notei um livro em uma das mesinhas de cabeceira da cama. Voei para descobrir se era a Bíblia, o Torá, o Corão ou um que continha ensinamentos de entidades superiores que se manifestam nos terreiros. Poderia ser também “Irmãos Karamazov”, “A Elite do Atraso” ou o último do Piketty.
Cheguei perto e vi a marca de um carimbo com as palavras: “TOP SECRET”. Meu corpo gelou. Eu poderia lê-lo? Qual a penalidade por transgredir ao alerta? Obviamente, comecei a folheá-lo. Estava em português. Seu titulo era: “Recomendações ao Senhor Temer”. Em alguns minutos, identifiquei do que se tratava. Eram recomendações de algum órgão, entidade, grupo ou país para a ação de Temer no governo. Procurei encontrar a autoria, mas foi impossível.
Li trechos aleatoriamente, apesar de estar muito preocupado. Não queria que descobrissem que existia uma alma de esquerda, no palácio. Lembro-me de alguns trechos.
O Senhor será guindado a presidente por ordem nossa a nossos quadros espalhados em diversas instituições brasileiras, ditas públicas. Irá contribuir muito também a grande mídia, que nos pertence. Nunca esqueça isto. Assim como vamos colocá-lo lá, poderemos tirá-lo a qualquer instante.
Pelas informações da nossa inteligência, o Senhor é o homem talhado para a missão que estamos lhe destinando. O Senhor não tem nenhum amor pátrio e não sente nenhuma responsabilidade social. Gostamos de alertar aos nossos prepostos, para que nunca digam estar surpresos com as ordens emitidas: elas serão impatrióticas e antissociais. Nossos quadros na estrutura do seu país e a grande mídia, que irão lhe apoiar, darão explicações para seus atos de forma a confundir a população, com eufemismos e dissimulações.
Nós precisamos do Senhor para tomar as medidas que desejamos, pois outros teriam escrúpulos. O Senhor as tomará sem remorsos, segundo a análise psicológica da sua pessoa. Sabemos também que o Senhor nunca foi muito bem votado. Conseguia se eleger porque o seu partido, o PMDB, sempre elegeu muitos deputados. O Senhor não pode concorrer a cargos majoritários porque nunca irá ganhar. Então, o Senhor não precisa ser popular. Por outro lado, o Senhor sabe fazer muito bem o “toma lá, dá cá” de seus colegas fisiológicos. E o Senhor usufruirá com o poder, enquanto nos for útil.
Não tenha ideias de grandeza, porque o Senhor não é imprescindível. Existe uma lista de possíveis substitutos.
Precisamos do seu mercado para nossos produtos, por isso, nada de conteúdo local nas compras do Estado. Precisamos de seus recursos naturais, em especial do seu petróleo, portanto, deixe nossas empresas entrar em condições vantajosas. Nada da engenharia brasileira competir com a nossa em obras internacionais. Seu banco de desenvolvimento deve se concentrar em financiar a venda de grãos, minérios, proteína animal e outros produtos primários.
O segredo das ultracentrífugas brasileiras deve ser compartilhado. O Brasil deve assinar o Acordo adicional da Agência Internacional de Energia Atômica que obriga o Brasil a aceitar inspeções não programadas e de surpresa em qualquer unidade nuclear. A base de Alcântara também deve ser entregue aos Estados Unidos. O Brasil não precisa de submarino nuclear. O contrato de compra de caças suecos deve ser cancelado. A Eletrobras, o Banco do Brasil, a Caixa e, por último, a Petrobras têm que ser privatizados.”
“Outras determinações serão dadas posteriormente, à medida que se façam necessárias. A presidente Dilma será deposta em dias. Prepare-se para assumir.”
Depois desta leitura e de muita indignação, acordei deprimido e passando mal.

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