30 janeiro 2017

Uma névoa povoa meus olhos

Paulo Metri 

Não é catarata, pois esta já foi retirada. Não se trata da “névoa da guerra”, pois não sou o Robert McNamara, nem meu país vive em guerra, a menos daquela caseira. Também não é o “espectro que ronda a Europa”, primeiro, porque a névoa nos leva a ver espectros, mas eles não são sinônimos. De qualquer forma, aquilo que rondava a Europa foi denunciado por Marx em 1848 no seu Manifesto. O fog londrino já foi dissipado, além de que não me encontro em Londres. Aliás, dissipação esta lamentada por toda sorte de bandidos que evaporavam no meio do fog, inclusive o Jack, que adorava estripar. Em resumo, não é também por causa do fog londrino.
Então o que não me deixa ver a realidade? O que turva o real? Devo usar uns óculos de distorção das imagens, que não consigo retirá-los. Será coisa do Grande Irmão? Mas a teoria da conspiração já foi oficialmente negada! Quem conspiraria, então? Forças retrógradas e contrárias ao povo? Forças formadas através do conluio do Congresso, Judiciário, mídia, rentistas, empresas estrangeiras e demais integrantes da turma do 1%! Como reles representante dos 99%, consegui a proeza de identificar o que há por trás dos óculos imateriais, mesmo com a visão turva!
Há a verdade absoluta, que traz nexo para as ações. Se o cidadão conseguir enxergar nitidamente, ele nunca votará em candidatos que irão prejudicá-lo, não irá a passeatas contra os que lhe ajudam, não acreditará piamente no que ouve na TV e no radio, nem no que lê nos jornais e revistas conservadoras. Ele não terá mais o perturbador da visão lhe bloqueando o entendimento.
Porém, como se desvencilhar destes óculos de objetivo invertido? Tem-se que começar a receber outras versões para os fatos já veiculados com os interesses da mídia do capital. Há que se entender que se vive em um mundo, pelo menos a parte ocidental deste mundo, em que o capital domina. É mais fácil se ouvir a versão dos empresários do que a dos trabalhadores.
Aberrações diversas são constatadas nela, como o elogio dirigido por William Waack a Obama, por ter promovido a paz no mundo. Nunca há divergência entre os analistas políticos. Eles sempre concordam. Mentira contada em vários lugares e a toda hora: “O orçamento de um país é igual ao orçamento de uma família: não se pode gastar mais do que se ganha.”
Como se desvencilhar das versões erradas? Não vai se livrar. Elas estarão sempre aí. A pergunta certa é: como chegar às outras versões dos fatos? Com pesquisa, luta, leitura, debate, inteligência e perseverança.
Contudo, há uma definição prévia a ser feita pelos candidatos. Você quer ser considerado por uma grande parcela da classe média como um ser problemático, quase um traidor da classe? E sem ser reconhecido pela classe mais pobre, que é a maior beneficiária da sua postura, como uma pessoa meritória? Você quer lutar por uma sociedade mais justa, em que qualquer criança nela nascida terá maior chance de crescer saudável, se desenvolver como pessoa e integrante da sociedade, onde terá uma velhice digna?
Não esqueça que não há grupo mais conservador que a classe média, que pouco usufrui do conservadorismo. Seria por esperança de, um dia, ser rico?

Janeiro de 2017

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