Paulo
Metri – conselheiro do Clube de Engenharia
Um jovem recém-eleito com seu grupo para o Diretório Acadêmico
de uma escola de Engenharia ficou encarregado da área de comunicação. Uma de
suas primeiras atividades foi fazer uma entrevista com determinado professor
para o jornal do Diretório, previamente negociada com a direção da escola. Sem
existir determinação expressa, a direção deixou clara sua preferência por uma
entrevista que se restringisse a questões curriculares e específicas da cadeira
dele. O professor era reconhecido por todos como competente e, também, muito conservador.
O jovem, querendo se desvencilhar de uma entrevista anódina, fez a primeira
pergunta:
- Por que há tanta pobreza no nosso país?
O professor, muito bem estruturado, responde:
- É resultado da ação de vários fatores, como, por
exemplo, o descaso do governo e das famílias, a falta de investimentos no país,
graças à falta de estímulo do governo aos empresários. O governo cobra alta
taxa de impostos, cria uma burocracia generalizada e não dá incentivo ao
empreendedorismo.
- Então, vamos analisar por partes. Em que consiste o
descaso do governo que o senhor se refere?
- O governo deveria criar igualdade de oportunidades
para todos os cidadãos poderem enfrentar a vida. A partir deste começo com
igualdade, alguns iriam se distinguir porque aceitam correr riscos, trabalham
com bastante afinco e são responsáveis, obtendo maior retorno do próprio
trabalho.
- Então, a igualdade de oportunidades se relaciona com
existir escolas, hospitais e demais atendimentos sociais principalmente para os
mais pobres. Mas os cortes do atual governo vão ser exatamente nestas áreas.
Este governo seria contra a igualdade de oportunidades?
- O governo Temer encontrou o país desgovernado. Tem
que fazer cortes para poder honrar os compromissos assumidos.
- O senhor fala de compromissos financeiros. Os
compromissos sociais não contam? São menos importantes?
- Temos que honrar as nossas dívidas. Existe a Lei de Responsabilidade
Fiscal.
- E com relação às dívidas sociais, podemos ser
irresponsáveis? Porque os rentistas são politicamente fortes e o povo, não?
Enfim, por que não se diminui a taxa de juros, pelo menos não irão existir
tantos compromissos futuros?
- A taxa de juros é fixada para debelar a inflação
existente. Às vezes, não se pode diminui-la.
- Existe tese contrária a esta sua afirmação, mas
temos outros temas para falar. Por exemplo, a política de cotas nas
universidades públicas não visa a melhoria da igualdade de oportunidades?
- Sim. Mas neste caso, consegue-se a melhoria à custa
da piora do ensino. A média das notas dos alunos diminui, provando que os
cotistas são alunos fracos.
- Esta sua afirmação é contestada por uma pesquisa da
UERJ. Nela, é provado que, no cômputo geral, os cotistas são bons alunos. O que
o Senhor acha do fato de cerca de 42 milhões de pessoas terem ascendido a uma
classe de renda maior no governo Lula?
- Quem disse isto? Porque este número é muito alto.
- Quem disse foi o IBGE. Cerca de 32 milhões saíram da
miséria e entraram na categoria de pobres e cerca de dez milhões migraram da
pobreza para a classe média. É alto, sim! Trata-se de uma Argentina!
- Entretanto, graças ao governo Dilma, todos já devem ter
retornado às suas condições iniciais.
- O senhor acredita que um país pode ter
desenvolvimento social em consequência de investimentos estrangeiros?
- Claro. Com novos investimentos no país, novos postos
de trabalho serão gerados, além de a arrecadação aumentar, o que proporciona
mais recursos para a área social.
- Contudo, pelo comportamento histórico de empresas
estrangeiras, constata-se que os seus investimentos tendem a empregar o mínimo
de nacionais, comprar o mínimo de materiais, máquinas e equipamentos no país, não
desenvolver tecnologia e realizar projetos de Engenharia, aqui, no Brasil. Além
de praticar o superfaturamento de importações e subfaturamento de exportações,
e a camuflagem da remessa de lucros através de assistências técnicas pagas à
matriz no exterior.
- Mas, aumenta o pagamento de impostos no país.
- Aumenta. Entretanto, vamos tomar como exemplo o
setor do petróleo. O Brasil é um dos países do mundo que menos taxa a produção
de petróleo, em torno de 45% do valor da produção, enquanto existem países com
taxações acima de 80% e a média mundial está em torno de 65%. Outra pergunta: por
que tanto ódio ao PT?
- O PT roubou! Você acha isso pouco?
- Não é pouco! Mas, o partido, como um todo, roubou?
Ou foram alguns de seus integrantes? Assim como integrantes de outros partidos
também roubaram.
- Mas, foram integrantes da direção do PT!
- Nem todos os integrantes da sua direção. E os
partidos, que hoje estão no poder, são compostos de vestais?
- Têm ladrões neles também. Mas vão ser todos pegos,
sem exceção.
Neste ponto, o rapaz fica pensativo e, após alguns
segundos, volta a falar:
- Confesso ao senhor que esta entrevista está saindo
toda errada, pois eu não deveria discutir com o senhor. Um jornalista deve
fazer perguntas que obrigam o entrevistado a se revelar. Nunca partir para uma
discussão. Desculpe-me.
- Não, pode colocar os seus argumentos. Eu gosto de
ouvir argumentos contrários ao meu pensamento, desde que sejam lógicos e não
agressivos. Você nem me chamou de “coxinha”!
- Não sei como vou resolver a questão da entrevista, mas
quero colocar mais um ponto. Acho que o senhor é um tanto esperançoso ao pensar
que os ladrões de outros partidos vão ser presos? O senhor acha que o Aécio vai
ser pelo menos investigado? Ele foi citado em seis delações e nada é feito. Não
estão faltando representantes da Justiça dispostos a reconhecer os erros de
integrantes do PSDB?
- Eu concordo com você. Não se pode perseguir só um
partido! Mas, você acha que existe um complô da Polícia Federal, Procuradoria
Geral e Justiça, cujo intuito é só destruir o PT? A concentração no PT não será
porque identificaram neste partido muitos corruptos?
- O senhor esqueceu a mídia como integrante do complô.
Este complô existe. Por outro lado, tais integrantes não estariam deixando os
bandidos de outros partidos para depois que passar no Congresso uma lei que dará
anistia para quem fez roubos no passado? O argumento para tal perdão será que “se continuar a caça às bruxas, o mundo
político irá se desestabilizar e, sem a política, nada avança na sociedade”.
- O maior fator de desestabilização da política é
deixar o ex-presidente Lula impune e solto.
- Não me diga que o senhor acredita que Lula é
corrupto! Se ele tivesse sido corrupto, teria sido burro também porque, com o
roubo, ele poderia ter um patrimônio muito maior do que o que tem hoje.
- Ele é daqueles que é impossível encontrar fluxo de
grana para seu patrimônio, mas ele tem tudo em nome de terceiros. Além disso,
deixou outros roubarem.
- Agora, o senhor extrapolou. Virou estação repetidora
da Globo. Os acusadores de Lula deviam ter mais respeito por ele, o cidadão que
prolongou a vida de milhões. O senhor é uma daquelas pessoas que teve oportunidades
na vida, neste mundo sem igualdade de oportunidades. Está certo que o senhor
teve o mérito de aproveitar o “cavalo
encilhado que passou na sua frente”.
Neste ponto, o universitário ficou pensativo e, depois
de algum tempo, retornou:
- Posso lhe pedir que faça um exercício de abstração
comigo?
- Bem, esta entrevista está sendo tão inusitada! E,
por que não faria?
- Será melhor se o senhor fechar o olho. Imagine a si
próprio como uma criança. O senhor é preto. Sua família consiste do senhor,
seus irmãos e sua mãe. Vocês moram em um barraco na encosta do morro. Uma vala
negra mal cheirosa passa ao lado do barraco. A figura feminina que lhe dá
comida passa o dia longe e vocês ficam em casa com a filha da vizinha que tem
13 anos tomando conta. Você tem sempre fome. A comida quando chega não esgota a
fome. Dois de seus irmãos maiores lhe batem e roubam a comida que a mãe de
vocês deixa para todos. Na sua cabeça infantil, você quer entender a razão de
tudo isso. Você está cansado de tanto sofrer, mas não sabe se expressar. A sua
feição é de dor. Você nunca sorri. A partir de determinado momento, sua mãe começa
a trazer para casa mais comida. Ela própria está sorrindo, coisa que raramente
você via. Depois uns homens trazem um armário grande que tem frio dentro. Sua
mãe é a própria expressão da alegria. Ela já pensa em arrumar os dentes dela.
Só é estranho porque apareceu um homem dizendo que era seu pai, mas sua mãe o
botou para correr.
Abrindo os olhos, o professor diz:
- Sim, já entendi. Mas, aonde você quer chegar?
- Quero chegar ao ponto que ninguém ouve depoimentos
como estes. Podem ser 32 milhões de depoimentos deste tipo. Mas, os potenciais
depoentes não sabem se expressar e, além disso, são politicamente fracos, o que
não traz ninguém para ouvi-los. Por outro lado, os meios de comunicação
endeusam o carrasco que ceifa o emprego de milhares de brasileiros em nome de
uma moralidade seletiva, em que a lei só é aplicada para os inimigos, enquanto
para os amigos, há um prestimoso esquecimento. E a verdade dura de ser ouvida
pelos representantes da nossa oligarquia e do capital externo é que o
responsável por essa melhoria das condições de vida da população pobre é o
presidente Lula. Com esta abstração, busco comunicar o possível depoimento de
um antigo “com fome”, se ele conseguisse falar.
- Mas, você é contra a apuração da corrupção?
- Que se apure a corrupção onde quer que ela ocorra.
Mas, que não se enxovalhe um homem de bem e com sensibilidade humana, como
tentaram fazer com Getúlio Vargas.
A entrevista acabou. Ambos agradeceram a sinceridade
do outro e o rapaz concluiu:
- Além de tudo, o senhor é muito educado. Não me
chamou de “petralha” nenhuma vez.