09 abril 2018

Dissertação sobre roubos

Paulo Metri – conselheiro do Clube de Engenharia

Muitas pessoas ficam estarrecidas, com razão, com o roubo no setor público. No entanto, existem roubos, tão ou mais estarrecedores, nunca denunciados pela mídia e, como consequência, não conscientizados pelo público. Tratam-se dos “roubos legalizados”, por serem instituídos por lei.
Um primeiro exemplo dos “roubos legalizados” é o ato de um governante não tomar as providências para poder cortar os juros da dívida e, em compensação, fazer cortes na educação e na saúde, significando um roubo no bem-estar social. Mas, este governante não está fazendo nenhuma ilegalidade. Chega-se, assim, à triste conclusão que o nosso arcabouço legal permite a tomada de decisões antissociais. A população mais carente é a que mais sofre com estes cortes.
Outro exemplo dos “roubos legalizados” é o fato que a classe rica paga menos tributos, percentualmente, que a classe pobre, caracterizando um roubo aos menos afortunados.
O Congresso Nacional aprovou, recentemente, o perdão da dívida dos ruralistas. Se estas fossem pagas, mais recursos estariam disponíveis para educação e saúde. Enfim, este perdão de dívida representou um “roubo legalizado” de verbas que beneficiariam os mais carentes.
Ainda na linha de poderes que renunciam a receitas garantidas da sociedade, o presidente da República concedeu isenções tributárias para as petrolíferas estrangeiras totalizando um trilhão de reais em 25 anos. Certamente, o produto deste “roubo legalizado” fará muita falta para os programas sociais.
Desta forma, a mídia só divulga os “roubos fichinhas”, basicamente de servidores do Estado de não tão alta hierarquia, ligados a políticos. Estes roubos são também recrimináveis, mas de grau de importância inferior. Os “roubos superiores” são ligados a fortes grupos econômicos e políticos, controladores da nossa mídia tradicional e, por isso, a sociedade nunca é informada sobre eles.
Roubos como o que ocorreu na Petrobras sempre existiram e existirão com maior ou menor intensidade, quer seja um governo de direita ou de esquerda. Os governos devem tomar medidas de prevenção para estes roubos menores, que diminuirão a sua intensidade, mas nunca serão extintos por completo. Por outro lado, deve-se buscar combater os “roubos superiores”, com o máximo rigor, apesar da grande blindagem deles, pois os prejuízos para a sociedade são imensos.
Grupos econômicos e políticos, a mídia e uma ala corrompida do Estado, em cínica ironia, aproveitam o forte apelo emocional do combate à corrupção para eleger seus candidatos com discursos anticorrupção, sendo, a maioria deles, corruptos. Em 1954, Getúlio era o presidente. Estas forças, encabeçadas por Carlos Lacerda, o acusavam de forma impiedosa de inundar a administração pública com um “mar de lama”. Quando, na realidade, Getúlio combatia os grandes roubos à nossa sociedade, descritos por ele próprio, em sua carta testamento, na citação às “aves de rapina”.
Em 1960, foi eleito como presidente Jânio Quadros com a promessa de “varrer a corrupção” da política nacional. Em 1989, Collor elegeu-se presidente com o discurso da “caça aos marajás”, quando, tempos depois, ele veio a perder seu mandato por corrupção. Este tema recorrente serve, agora, para afastar Lula da política nacional, sem nenhuma prova que o vincule a algum roubo.
Enquanto isso, estas forças se preparam para lançar candidatos a presidente que irão permitir os grandes roubos acontecerem, como as privatizações da Eletrobras, Petrobras, Banco do Brasil e Caixa Econômica, a venda de blocos do Pré-Sal por preços irrisórios e vendas de fatias do patrimônio da Petrobras na bacia das almas, o que compõe também algumas das ações atuais do “roubo legalizado”.
Finalizando, notar que todos os que, para chegar ao poder, prometem limpar o “varejo da corrupção”, na realidade, irão apoiar o “atacado da corrupção” e, além disso, eles não têm um projeto de nação soberana para o Brasil e não querem a inclusão social.

28 março 2018

Petrolíferas estrangeiras ou a Petrobras na exploração do Pré-Sal?

Paulo Metri - conselheiro do Clube de Engenharia e vice-presidente do CREA-RJ

A avaliação de um atendimento à sociedade requer a comparação com formas alternativas deste atendimento. Assim, o impacto na sociedade brasileira da atuação de empresas estrangeiras no Pré-Sal deve ser comparado com o impacto da atuação da Petrobras no Pré-Sal. Não existem empresas privadas nacionais que possam atuar no Pré-Sal e servir para comparação. Objetivamente, serão analisadas as atuações das petrolíferas estrangeiras e da Petrobras na exploração do Pré-Sal que trazem impactos diferenciados para a sociedade.

Atividades de conquista das tecnologias necessárias à exploração, apesar do Brasil ser um país com atraso em desenvolvimento tecnológico, devido à atuação da Petrobras no Pré-Sal ser de sucesso, tais atividades podem ser a ela designadas. As petrolíferas estrangeiras também podem desenvolver tecnologia, mas irão cobrar caro por sua capacitação, o que repercutirá no lucro e, assim, diminuirá o tributo deixado para o Estado brasileiro. Além disso, as tecnologias desenvolvidas por elas ocorrerão em seus países de origem e, portanto, o Brasil não deterá estas tecnologias.

Indústrias nascentes com conteúdo tecnológico, futuras fornecedoras do Pré-Sal, devem obter incentivos visando o desenvolvimento tecnológico. A Petrobras pode ser a fomentadora destas indústrias, tarefa que já desempenhou no passado. As petrolíferas estrangeiras não irão desenvolver empresas de cunho tecnológico no país. Irão comprar dos seus tradicionais fornecedores e aliados no mercado internacional.

A Petrobras é quem compra plataformas no Brasil. A plataforma, além de representar mais de 80% dos investimentos, durante sua construção é que ocorre o grande emprego de mão de obra do empreendimento. As petrolíferas estrangeiras não compram plataformas no Brasil.

As alternativas do modelo de organização do setor não devem somente garantir que o petróleo será produzido e os tributos serão pagos. Devem gerar empregos no país, inclusive os de qualidade, desenvolver fornecedores, desenvolver tecnologia em centros de pesquisa do país, comprar materiais e equipamentos em fornecedores locais, melhorar o nível de segurança das atividades petrolíferas e trazer o impacto ao meio ambiente ao mínimo. A Petrobras satisfaz melhor todos estes critérios de avaliação que as petrolíferas estrangeiras.

Qualquer atividade econômica geradora de lucro excepcional, como é o caso da atividade petrolífera, deve ser reservada para o Estado. Entretanto, diferentes concepções ideológicas se confrontam com relação à apropriação da renda petrolífera. Aqueles com posições socialmente comprometidas argumentam que os recursos naturais de uma sociedade só a ela pertencem e não a agentes econômicos. Os liberais econômicos creem que a empresa privada pode ter a atividade, gerar o lucro exorbitante antes da tributação e, depois, uma parcela deste lucro é abocanhada através de tributo. No entanto, no mundo real, governos dão isenção de impostos, lucros menores são obtidos com artimanhas contábeis etc.

Liberais argumentam também que o petróleo é uma mera “commodity” e, portanto, sua produção pode ser entregue ao setor privado. Aí, foi desprezada a importância geopolítica do petróleo. Também, a Petrobras não deve seguir a recomendação de liberais, de se especializar em exportar petróleo bruto. Ela pode produzir petróleo acima da necessidade do Brasil, refinar o excedente e exportar os derivados, com maior valor agregado. Para finalizar, a agência reguladora do setor, que deveria proteger a sociedade, infelizmente não o faz. Estas agências no Brasil, de uma forma geral, foram “capturadas pelo mercado”, significando o fracasso do modelo.

A organização do setor de petróleo, visando maximizar os benefícios para a sociedade, é função também do grau de consciência política da sociedade. O caso brasileiro de agências reguladoras capturadas pelos entes a serem regulados mostra a nossa baixa consciência política. A mídia convencional existente no país, com interesses escusos, é a grande responsável por este baixo grau de consciência política.

Todas as petrolíferas internacionais foram para o Mar do Norte, nos anos 1970, a convite do Reino Unido e da Noruega. O Reino Unido determinava, para cada campo, materiais e equipamentos que seriam adquiridos localmente. A Noruega decidia, para cada bloco petrolífero, se a Statoil iria entrar e com que participação. Nenhuma petrolífera reclamava. Os decisores públicos eram livres para agir como quisessem, mas nunca agiam de forma antissocial. A consciência política deles não deixava.

Um novo governo brasileiro deveria buscar corrigir os erros recentemente cometidos por visão entreguista, tentar reaver junto às petrolíferas estrangeiras os prejuízos, que elas sabiam estar causando, receber de volta muitas das vendas de patrimônios por preços vis realizadas, fazer a Petrobras voltar a ser uma empresa integrada e induzir nosso crescimento econômico e social.

23 março 2018

A mídia do capital prejudica a sociedade

Paulo Metri

O julgamento, em 22/3 último, da admissibilidade do habeas corpus impetrado pelos advogados do presidente Lula ao STF, foi esclarecedor para quem ainda tinha alguma dúvida sobre a assunção de posição política pela “mídia do capital”. Esta é composta pelos canais de TV abertos e alguns pagos, as rádios associadas, os principais jornalões e a quase totalidade das revistas semanais.

A repórter de determinado canal interrompia a programação à medida que cada juiz do Supremo acabava de proferir seu voto. Ao interromper, ela desfechava, de passagem, o veredito do canal, mais ou menos, da seguinte forma: “interrompemos para noticiar o julgamento do STF, que trata da possibilidade do presidente Lula já ser preso no próximo dia 26, quando os recursos apresentados por seus advogados serão julgados no TRF4”.

Eu diria que a repórter, por sinal, muito bonita, bem representava a esperança do canal que era a de poder transmitir o presidente Lula sendo preso. Isto é revelador, porque deixa claro que o canal não considera como valioso o princípio da “presunção da inocência”. Não seria de estranhar, se a repórter dissesse algo como: “O presidente Lula está querendo postergar a data da sua prisão, ao máximo, na tentativa que ocorra algum fato político, como um levante popular, que leve a justiça à situação em que, de alguma forma, ela permita a sua candidatura.

O princípio da “presunção da inocência” nos engradece como espécie, porque só iremos imputar a culpa a alguém depois da investigação ter terminado e não houver mais dúvida sobre a culpabilidade do réu. Se assim não for, estaremos usando a justiça para atingir objetivos políticos ou pessoais, o que é, em ambos os casos, deplorável. Pode ser argumentado que, no nosso código penal, existe a possibilidade de colocação de muitos recursos, o que posterga em demasia o “trânsito em julgado”. Então, que se atualize este código, mas, não se faça um by-pass no processo, para apressar o veredito final, estuprando o princípio da “presunção da inocência” e, por conseguinte, a Constituição.

Passado algum tempo, mudo de canal e paro em um no qual está falando um comentarista, que diz algo como: “A prisão logo após o término da segunda instância demorou muito mais anos sendo utilizada que a prisão só após o ‘trânsito em julgado’. Este só durou de 1988 até 2016.” Claramente, o canal em que ele trabalha está fazendo malabarismos para criticar a decisão do Supremo. Se o conceito expresso pelo comentarista fosse o definidor da atratividade da lei, a lei áurea deveria ser revista porque passamos mais tempo no Brasil tendo a escravidão que o período em que ela foi abolida.

Canais de mídia no Brasil têm opinião política, o que pode ser feito, desde que assumam sua posição e não busquem dizer que são isentos. Eles pensam que enganam seus leitores, ouvintes e espectadores, mas muitos deles entendem as artimanhas que são feitas. Está de parabéns a “Carta Capital” que tem partido e o declara abertamente. De qualquer forma, algumas pessoas com baixo nível de conscientização política embarcam, infelizmente, na ficção que a mídia do capital conta.

14 março 2018

Decisão portadora de futuro

Paulo Metri – conselheiro do Clube de Engenharia

A cada dia, todos nós dedicamos um pouco de tempo para escolher a roupa que iremos usar. Se a pessoa vai comprar algo de valor, por exemplo, uma casa, é comum verificar se existe condição financeira para arcar com as despesas, se o valor de venda dela no futuro é compensatório etc. Então, peço que reflita junto comigo sobre a sua decisão em quem votar em outubro próximo.
A minha ousadia ao buscar interferir no seu voto é porque o futuro de todos nós vai depender do conjunto dos nossos votos. Que sua escolha influencie o seu futuro é justo, mas o problema é que ele influencia o meu também e o de toda a coletividade. No período eleitoral, existem muitos caçadores de voto, alguns, bem intencionados, com interesse em contribuir para a sociedade e, outros, com interesse único de usar o cargo eletivo em benefício próprio ou do seu grupo.
Esteja consciente que seu voto não pode ser comprado e ninguém pode fazer chantagem com você para poder obtê-lo. Contaram-me que políticos conseguem até marcar operações em hospitais públicos, furando a fila de atendimentos, em troca de voto. Neste caso, não vou querer influenciar o seu voto porque quem está sofrendo é você. Mas este político é desonesto, porque quem pode definir a ordem das operações são os médicos que conseguem avaliar a gravidade de cada caso. Aliás, este político deve lutar para que as filas nos hospitais nunca acabem, pois elas são compostas de eleitores prontos a negociar o voto.
Estes “compradores de votos” não têm nenhum compromisso com a sociedade. Além disso, muitos deles são enganadores, já que prometem empregos e muito mais, e quando eleitos, não cumprem. Muitas vezes, porque, mesmo com o mandato, eles não têm como cumprir o prometido. Desta forma, não negocie seu voto com políticos que oferecem dinheiro ou benesses. O nosso futuro nunca vai ser melhorado através deles.
Para escolher em quem votar é necessário algum estudo, principalmente porque os maus-caracteres procuram dissimular sua má intenção. Alguns conselhos podem ajudar neste processo de separação do joio do trigo. Busque ver o currículo do candidato. Veja se ele já teve mandatos eletivos e, se teve, que projetos apresentou, como votou os diversos projetos, quantas sessões ele faltou, quais foram seus discursos na tribuna, que artigos escreveu e quem o recomenda. O Google não deve ser considerado como uma fonte fidedigna, mas coloque o nome do candidato lá, pois podem aparecer surpresas.
Tem-se mais trabalho quando o candidato nunca teve um mandato. Mas, de qualquer forma, ele teve um passado. A opinião sobre qualquer candidato, que tenha tido mandato ou não, será sempre baseada no passado do próprio, o que nos ajuda a deduzir como ele se posicionará no futuro. Não confie em currículos feitos pelos próprios candidatos. Desconfie dos candidatos muito citados nas televisões, rádios, jornais e revistas, porque o poder econômico deve estar querendo inflá-los ou queimá-los.
Busque obter informações sobre como pensam estes candidatos sobre os temas que você julga relevante. Por exemplo, o que pode ser feito para combater o desemprego? Como ele se posiciona com relação à pretendida reforma da previdência? Ele apoia a reforma trabalhista recém-aprovada? Se todos os eleitores votarem cumprindo as recomendações citadas, certamente o nosso futuro será bem melhor, pois teremos políticos com mandatos que serão verdadeiros representantes do povo. Ou seja, o voto consciente traz um futuro melhor.

08 março 2018

Única saída inteligente

Paulo Metri

Vamos e convenhamos, o Brasil vive uma crise política, que eu não diria ser “sem precedentes”, mas “gigantesca”. Não se trata de ênfase retórica. É a pura realidade e, a estas alturas, palpável. Nesta crise, se os ânimos não se acalmarem e a racionalidade não prevalecer, não existirão vencedores. O caos poderá ser introduzido e todos terão seu quinhão de perda.
Tentando contribuir, analiso alternativas de futuro para defender a tese contida no título. Primeiramente, trabalho com a hipótese de Lula ser considerado inelegível. Boa parte dos eleitores perderia seu candidato preferido, que não estará à disposição para ser votado. Estes se dispersariam provavelmente entre Ciro, Manuela, Boulos e algum novo candidato do PT. Existirão muitos candidatos nesta eleição, mas irei me limitar aos já citados e mais Bolsonaro, Alkmin, Maia, Meirelles e Marina. Tirei da disputa, por notícias atuais da mídia, Dória, Huck e o próprio Temer. Serra já havia sido defenestrado anteriormente.
Em hipóteses raras, segundo pesquisas de opinião atuais, se der Alkmin, Maia ou Meirelles teremos quatro anos de muitos embates e enfrentamentos. A sociedade não fica mais totalmente anestesiada, como ficou durante o governo FHC. A Marina também está com baixo índice de intenção de voto e, além disso, os quatro anos com ela também serão conturbados, por transmitir insegurança em questões de Economia. Os movimentos sociais não deixarão que nenhum deles atenda totalmente às reivindicações do capital nacional e internacional. Qualquer destas alternativas vai encontrar uma sociedade mais politizada, calejada, e consequentemente, será difícil para estes governantes de direita conseguir passar todas as suas propostas.
Como a mídia irá jogar pesado a favor dos seus candidatos, ainda deixarei a possibilidade de Alkmin ou Maia ou Meirelles ou Marina ir para o segundo turno. Tudo leva a crer que o Bolsonaro irá para o segundo turno. Ele é um candidato de direita, apesar de algumas pessoas dizerem que não é bem assim. Além disso, terá que ser tutelado em questões de Economia e, como tem se oferecido muito para o capital, será possivelmente mal tutelado. Obviamente, o pior dele é considerar o torturador coronel Ustra como um herói, acreditar que o Exercito deve patrulhar comunidades carentes, ser misógino e considerar o estupro um ato de consideração para com a vítima, ou seja, é ele ser um horror. Mas, um ponto deve ser reconhecido: Bolsonaro é o candidato que melhor utiliza a mídia. Também, em época de crise na segurança pública, o fato de ser um militar reformado transmite a ideia que saberá enfrentar a bandidagem.
Quanto aos candidatos de esquerda, Manuela e Boulos são desconhecidos da grande massa e, além disso, por preconceito, alguns eleitores não votam em candidatos de partidos comunistas ou de movimentos de trabalhadores. Além disso, dentro da esquerda, encontra-se também o fogo amigo: Luciana Genro, candidata à Presidência pelo PSOL em 2014, disse que “uma candidatura do PSOL precisa ter uma postura clara de enfrentamento ao modelo lulista, que é de conciliação de classes, (...)”. O Ciro não une as esquerdas por acender velas para Deus e o diabo. Os eventuais candidatos do PT podem ser Celso Amorim, Haddad e Wagner, que, a menos do Amorim, pouco ampliam a lista de votantes para além dos adeptos da esquerda. O Amorim é uma incógnita.
O único candidato que traria paz à sociedade brasileira, até porque já trouxe, o que é fato comprovado, em passado próximo, é Lula. Ele satisfez, dentro de limites, o capital e o trabalho. Aquilo que a Genro considerou como negativo é na realidade o grande ponto positivo de Lula. Então, a nossa escolha para o futuro é a paz, que permitirá o crescimento econômico, social e político, ou o embate permanente, que trará angustias perenes. Conhecidas estas razões, cabe aos políticos imporem a lógica salvadora àqueles que pregam o ódio que a justicialização com argumentos não comprovados traz.

06 março 2018

Dia Internacional da Mulher

Paulo Metri 

O dia 8 de março, considerado em todo mundo como o Dia Internacional da Mulher, deve se revestir de reflexão. Há, na espécie humana, dois princípios antagônicos que influenciam muitas das atitudes de qualquer um de seus representantes. Trata-se da competição e da solidariedade.
A competição é responsável pelas descobertas tecnológicas e pelo progresso econômico, enquanto pode ser considerada como a causa da exclusão de muitos humanos dos benefícios destas descobertas e deste progresso. Assim, a competição é responsável pelo aparecimento daqueles que alguns chamam de “perdedores” da nossa sociedade, como os negros, as minorias religiosas, os pobres e as mulheres. Chegaria a ser ridículo, se não fosse triste, o fato de quererem imputar a culpa aos integrantes destes grupos de estarem em situação de desconforto por atitudes próprias, como por não terem mérito ou por não terem se sobressaído na competição etc. Certamente, neste caso, o Estado deve ser utilizado como moderador da competição e introdutor da solidariedade.
As mulheres são discriminadas, por exemplo, na obtenção de empregos, na ascensão profissional em empresas e na hora do voto. Como a participação dos dois gêneros na sociedade é de aproximadamente 50% cada um e, como seres pensantes, ambos podem igualmente se destacar, a metade dos congressistas deveria ser de mulheres, assim como a metade dos diretores de empresas. Também, o salário médio das mulheres e dos homens, para os mesmos trabalhos, deveria ser igual. Mas, infelizmente, nada disso acontece.
Assim, o dia 8 de março deve ser dedicado à identificação das causas desta discriminação e como suplantá-las sem conflitos. O Dia Internacional da Mulher sem reflexão é uma boa maneira de contribuir para continuar existindo a discriminação contra elas.

01 março 2018

As violências do Brasil

Paulo Metri – conselheiro do Clube de Engenharia e vice-presidente do CREA-RJ

Deixo claro, desde já, que não existe só um fator indutor de violência na nossa sociedade e, também, que a existência de um destes fatores alimenta todos os demais. Procurarei listar os possíveis fatores que determinam o alto nível de violência existente hoje no Brasil. Primeiramente, o mau-caratismo dos bandidos é indiscutivelmente causa relevante. No entanto, a incidência dos que têm propensão a ser bandido não deve diferir tanto com o local.
O policial corrupto é mais bandido que o pior dos bandidos, porque dele se esperava o exemplo. Da mesma forma, o juiz que não faz justiça é um usurpador da esperança do povo e fator de desestruturação de toda a organização social. Políticos corruptos, junto com os policiais e juízes corruptos, compõem mais um fator gerador de violência social, dos mais danosos.
A falta de um tempo mínimo na escola para toda a população, quando seriam transferidos valores sociais e humanísticos, bloqueadores da violência, transforma-se em fator facilitador da agressividade.
A vergonhosa distribuição de renda e riqueza no Brasil é uma causa da violência sempre esquecida na mídia e, por conseguinte, na percepção do povo. Para ser preciso, esta nossa péssima distribuição de renda e riqueza, que é uma das piores do mundo, trata-se, por si só, de uma violência. A diferença abissal entre os mais ricos e os mais pobres no Brasil é um fio desencapado pronto para originar um curto circuito a qualquer momento, e nunca é lembrada pelos analistas da mídia venal. Aliás, o jeito que esta mídia esconde ou torce as informações para enganar o povo é também um fator indutor de violência.
A precária vida dos mais pobres, que têm fome e não têm atendimento social algum, consiste em uma brutal violência. O nosso Estado nacional, graças à maioria dos políticos que o dominam, não dá prioridade aos mais necessitados. A fome e a falta de atendimento da saúde são, por definição, violências constrangedoras. Além disso, os pobres, por serem propositalmente despolitizados, são sempre tratados com violenta desconsideração. Eles com seus sofrimentos são transformados pela mídia (sempre ela!) em seres invisíveis.
Os catadores dos lixões são o próprio retrato da violência. Estes inaladores de cheiros putrefatos, comedores de alimentos estragados, que se expõem a toda sorte de vírus e bactérias, são seres que se submetem à violência de catar nos rejeitos dos abastados sua subsistência. Assim como os que dormem nas ruas, os catadores passam a ser considerados pela elite como sub-humanos, aos quais não é preciso dedicar solidariedade. Cadáveres já não causam espécie, pois tropeçam neles no caminho para casa quase todos os dias. Hannah Arendt diria que foi banalizado o mal também nas comunidades carentes brasileiras. Aqui, o valor da vida é mínimo, ficando mais fácil praticar atos violentos.
Como um fator de peso, estão os atos da mídia para encobrir falcatruas de poderosos, que são tratadas com inusitada benevolência e sem grande divulgação (mais uma vez, “ela”!). Também, o governo dá isenção de impostos para setores econômicos extremamente rentáveis, que não precisariam de apoio algum, caracterizando uma violenta renuncia de tributos, em possível ato de corrupção. Estes recursos poderiam ser destinados para aplicações de grande impacto social, como saúde e educação.
O Estado brasileiro pouco está nas favelas. Aí, este mesmo Estado brasileiro manda o Exército para elas. O que mesmo o Exército veio fazer nestas comunidades carentes? Ele tenta ser só o agente repressor! Não há nenhuma iniciativa para mudar o curso das demais violências. Falta pouco para o triste fim desta corporação da qual os brasileiros ainda se orgulham. O que os pracinhas brasileiros, que deram a vida para defender o Brasil de eventual jugo nazista e que eram oriundos, na sua maioria, de comunidades carentes, diriam do Exercito, que serviram com tanto garbo, estar agora confundindo pobre com bandido? O Exército foi convocado por “ela”, a causa primeira de todos nossos males, junto com os interessados na manutenção do status quo, para ser o exterminador da dignidade do pobre.

16 fevereiro 2018

Enigma Tuiuti

Paulo Metri

O que é a Tuiuti, além da senhora escola de samba que nos presenteou com um inesquecível desfile no último domingo de carnaval?
Ela, finalmente, trará a libertação dos atuais escravos! Ao assistir o desfile da Tuiuti na avenida das consciências, senti que carece ao grupo dos brancos um pedido formal de desculpas aos irmãos negros pelos séculos de humilhação e exploração. Para poder ser válido, terá que ser um pedido verdadeiramente sentido. Enquanto sou também um encabulado integrante do grupo branco, peço perdão.
Tuiuti mostrou com justíssima indignação o sistema insensível por nós construído de exploração e maus tratos dos nossos semelhantes. A escola mostrou também ser uma arma letal para os malfeitores da sociedade, que, apesar de não estarem presentes, foram vistos nus no meio da Sapucaí.
Tuiuti apresentou a denuncia mais eficiente dos empedernidos e recalcitrantes vilões da sociedade. Desde os senhores de engenho aos atuais membros do Executivo, Legislativo, Judiciário e Ministério Público, que fazem sofrer a sociedade. Estavam todos lá, para os bons entendedores.
Trata-se do método lúdico para conscientização política, que lembra o de Paulo Freire com sua descrição precisa do real. Enquanto a mídia atual, pertencente ao capital, se esforça para incutir mentiras nas notícias ao povo, a Tuiuti em poucos minutos faz desabar estes castelos de mentiras. Também, teses erguidas sob areias movediças não se sustentam.
Tuiuti também deu vida aos desvalidos, desesperançados, membros do movimento dos sem mídia (MSM). Os coronéis latifundiários das comunicações se sentiam seguros que, controlando as notícias e, consequentemente, os governos, nunca seriam confrontados. Tinham segurança total do domínio das mentes brasileiras.
Tuiuti é a expressão máxima da bondade existente em todas as religiões. Veio atender ao chamado dos mais carentes, cujas “fortunas” igualam as dos cinco homens mais ricos, em horrendo disparate. Mães começam a pedir que a Tuiuti proteja seus filhos. Hoje, os perseguidos podem se proteger, com alguma dose de blefe, dizendo: “se você não parar com esta agressão, vou chamar a Tuiuti”.
O efeito Tuiuti na política é óbvio, até porque o desfile foi político, com tema corretamente colocado, e a escola mostrou ser um grande instrumento de ação política e mobilização social. Como o Rio é a grande caixa de ressonância do Brasil, o efeito Tuiuti foi expandido. Se Temer tinha ainda alguma esperança de aprovar sua reforma da previdência, graças ao desfile, se conscientizou que não conseguirá. A saída honrosa, mas horrorosa, que Temer tomou para não sair todo chamuscado com o arquivamento da reforma ou ser humilhantemente derrotada no Congresso, foi invadir o Rio de Janeiro. Agora, a reforma ficará em estado de espera, que por ele será bem longo.
Ela é tudo isso e muito mais. Não se pode deixar de dizer que o carnavalesco Jack Vasconcelos é um gênio. Enfim, como disse o amigo Olavo, que não é o que se auto intitula filósofo: “Tuiuti lavou minha alma”.

10 fevereiro 2018

João, João, Fernando e Eurico

Paulo Metri – conselheiro do Clube de Engenharia

O Quinzinho não se chama Marcos e muito menos Quincas. A razão de lhe chamarem assim é porque ele não gostava de ser João de Souza, quando ingressou no tráfico. Com certeza não teve boa vida durante os primeiros 15 anos de sua existência. Conheceu, sim, a agressão máxima que um ser humano é capaz de suportar.
Recebeu agressão do Estado brasileiro, que lhe negou as condições mínimas de sobrevivência, que não deveriam ser negadas a nenhum brasileiro. Foi agredido pelo pai que lhe contemplou com ausência absoluta, deixando o padrasto em situação privilegiada, porque este estava sempre presente para a surra diária. Era agredido pela mãe, involuntariamente, pois o deixava com a vizinha, uma vez que tinha que ir trabalhar. Esta não o alimentava direito. Sentia muita fome na infância.
Desde muito jovem sentia atração para ir para o tráfico, pois sabia que se usasse a coragem e a inteligência que tinha, seria respeitado. Passou a ostentar um revolver aos 15 anos e sentiu que o tráfico era sua única chance de acesso a dinheiro, poder local e garotas da comunidade. Não se perguntava durante quanto tempo isto iria ocorrer. A solidariedade social era restrita aos moradores da comunidade que ficavam calados e não denunciavam seu grupo. Durante seu desenvolvimento, a única alternativa que teve foi ser marmiteiro, que ele rejeitava.
O outro João, mais conhecido como Da Silva, nunca repudiou seu nome, mas o instrutor da corporação, quando ele entrou, escolheu lhe chamar desta forma. Quando criança, achava bonito o uniforme de policial. Depois de certa idade, deixou de dizer que queria ser policial, devido à cobertura dos tiroteios pela TV e dos funerais de soldados. Mas, a crise da economia deixou um exercito de desempregados no país e lhe ceifou alternativas de profissão.
Não era bom atirador e relutou a aderir aos subornos, colocando-se na linha de frente, como policial descartável. Na verdade, tinha orgulho de participar da corporação. Não acreditava que seus superiores pudessem ser corruptos. Sentia-se bem em proteger o desprotegido, apesar de ser um revoltado quanto ao seu salário. Conseguia levar o mínimo para casa para sua família não morrer de fome. Sua mulher cansava de lhe dizer para procurar ser segurança de um supermercado, de empresas ou de grã-finos porque ela não queria ficar viúva.
Fernando é um funcionário público, altamente qualificado, pesquisador da Fiocruz e participante do grupo que procura criar vacinas e remédios para algumas doenças tropicais. Profissionalmente está no local certo, pois vibra com o que faz. Só reclama porque o governo vive cortando verbas de pesquisa, além dos já cortados salários. Conclui que o Governo quer mesmo que continuem brasileiros morrendo por falta de vacinas e remédios.
No dia 6 de fevereiro de 2018, Quinzinho, Da Silva e Fernando não sabiam, mas tinham um encontro marcado na Linha Amarela. Traficantes e policiais, mais uma vez se desentenderam e trocavam muitos tiros, mas realmente muitos. Fernando e sua esposa foram assinar um documento formal em um cartório e voltavam para casa, quando foram surpreendidos pela cena de terror explicito. Empurrados pelo tráfego intenso, foram parar na zona mais quente da “Faixa de Gaza”. Os dois não tiveram alternativa, a não ser se proteger atrás da mureta de uma escada para a passarela.
Foi, no mínimo, uma hora de muito medo. Presenciaram o cidadão que queria ter seus segundos de glória e chegava a se expor para gravar pelo celular o que acontecia. Ele ouvia as pessoas dizendo: “não levanta”, mas precisava daquele vídeo e continuava em pé gravando. Ao mesmo tempo gravava um discurso confuso, pois dizia que a saída era ir para Miami, como se fosse possível a população do Rio de Janeiro ir toda para lá.
Da Silva estava próximo, mas atrás de outra mureta, a da divisória de pistas. Os traficantes aparentemente estavam ganhando, pois atiravam mais. A posição no alto era vantajosa, assim como a irregularidade do conjunto da comunidade ajudava muito a eles para se esconder. Quando Da Silva achava que via uma cabeça saliente na silhueta da favela, se esticava, mirava e atirava. Mas não demorava muito tempo se expondo. Não pensava na vida do traficante, pois “era ou a minha ou a dele”.
O traficante, no seu mundo incompreensível para a maioria de nós, só pensava em destruir todos que ameaçassem seu negócio, sua razão de vida. Apesar de muito corajosos todos queriam sair dali com vida. A esposa de Fernando mais que tremia, chacoalhava. Atrás daquela sinfonia de estampidos, depois de cada um deles, uma vida, que demorou anos para chegar a um estágio avançado de desenvolvimento, poderia estar tombando. Esta é a cruel realidade sobre a qual todos nós deveríamos chorar: “atrás de cada estampido, uma vida pode estar sendo extinta”.
Depois de muito tempo com os afagos mortais, os traficantes se recolheram aos seus esconderijos, parecendo vietcongues que, para espanto dos norte americanos, evaporavam na floresta. Os policiais, dando graças a Deus porque nenhum companheiro foi abatido, também se recolheram. Fernando, esposa e todos que participaram do safari da Maré pegaram seus carros e, agora, relatam seus feitos que, na verdade, se resumem em grande imobilidade. No caso do Fernando, se uma bala perdida o achasse, teria atingido o personagem, dentre todos os aterrorizados inocentes da redondeza, que mais contribuía socialmente. O que mostraria a injustiça da aleatoriedade.
Pode-se e deve-se pensar em quem são os culpados. Todos os que governam de forma excludente. Os políticos, os do Executivo, os do Legislativo, os do Judiciário e os do Ministério Público são culpados. Sim, hoje o Judiciário e o Ministério Público são compostos, na sua maioria, de políticos. São culpados também aqueles que, sendo empresários, não se satisfazem com o acumulo de riqueza que cinco gerações suas terão dificuldade em gastar. São todos aqueles que buscam iludir a população para usufruírem de sua ignorância. Neste grupo, está a mídia, mas ela não está sozinha. Os traficantes são grandes culpados. Na verdade, eles são seres maus, assim como os policiais corruptos.
Existe uma realidade pouco compreendida entre nós. A péssima distribuição de renda do Brasil é um fator indutor da violência. O raciocínio na cabeça de qualquer um é simples: “se cinco empresários brasileiros possuem a mesma riqueza que os 50% mais pobres da população” é porque, neste país, vale a exploração mais desumana. Então, retirando o dano à saúde do usuário, para o qual não há perdão, por que os traficantes são culpados de criar dependência e roubar os usuários? Os crimes do colarinho branco já foram banalizados e perdoados, e os demais, não?
O Eurico trabalha no escritório do pai, uma banca de advocacia especializada em assessoramento de empresas de mineração estrangeiras com relação ao ambiente jurídico e político do Brasil. Recentemente, ganhou rios de dinheiro ao conseguir que o Executivo isentasse por 22 anos o pagamento de impostos de petrolíferas. Elas tinham direito a só mais quatro anos de isenção. Ele tem ódio de ter que morar no Brasil.
Todos que assistiram ao Jornal Nacional, naquela noite, não entenderam o porquê de tanta violência.

22 janeiro 2018

Privatização da Eletrobras

Paulo Metri

Segundo William Bonner, o telespectador médio brasileiro é “um Homer Simpson” e a Globo, empresa que o emprega, não se preocupa, em momento algum, em informar todos os ângulos de um fato, assim como desenvolver o pensamento crítico dos expectadores. As matérias carecem de análises a partir de diferentes visões, restringindo-se às posições de interesse do capital, que prefere o telespectador brasileiro bem inocente e alienado, passível de ser facilmente enganado. Assim, eles formam Homer Simpsons.
Mas não é só a Globo que age desta forma. Trata-se de um comportamento de toda a mídia tradicional, que engloba os demais canais de TV, tanto os abertos, quanto os a cabo ou por sinal de satélite, todos grandes jornais, quase todas as revistas semanais e as rádios comerciais. Só a mídia alternativa defende o povo. No governo Temer, como todas as propostas de reformas beneficiam o capital em detrimento da sociedade, o controle da mídia está sendo muito útil para estes inimigos do povo.
O prejuízo causado pela mídia do capital à sociedade brasileira, como, por exemplo, através da reforma trabalhista, que fez regredir a proteção ao trabalhador quase àquela existente na época da revolução industrial, tem como grande responsável esta mídia. Desta forma, a privatização da Eletrobras é a próxima investida do capital. Só um sociopata, que não sente remorsos por ações antissociais, pode atingir o grau de crueldade existente no esquartejamento da Petrobras e nesta privatização. Tem horas em que a inocência do povo chega a ser um benefício para ele, pois o que adianta entender a desumanidade com que lhe tratam e estar impossibilitado de reagir?
A privatização da Eletrobras chega às raias do absurdo, uma vez que, ao privatizá-la, privatiza-se também a água, uma necessidade humana. Os ideólogos do neoliberalismo vivem falando em “competição perfeita”, que é difícil de ser encontrada no mundo real. Da mesma forma, não existe agência reguladora que tenha o poder de ditar normas para poderosas proprietárias privadas de aproveitamentos hidráulicos.  É impossível que uma agência reguladora, ainda mais no governo Temer, mande uma geradora privada reter água na barragem, sem gerar eletricidade, porque ela será necessária para o abastecimento humano, por exemplo. Os ocupantes de cargos de direção em agências reguladoras, no Brasil, têm sido escolhidos pelas empresas privadas a serem reguladas pelo órgão.
Geração de eletricidade é um dos usos da água de uma bacia hidrográfica e, inclusive, não é dos mais nobres. Alguns usos da água, ordenados pela nobreza, sob a minha ótica pessoal, são o abastecimento humano e animal, a irrigação, a piscicultura, a geração elétrica, o uso do leito do rio para navegação e o turismo. Se este argumento não bastar para a Eletrobras não ser privatizada, a eletricidade é um insumo básico em qualquer economia, além de ser um consumo residencial indispensável. Assim, as empresas encarregadas da geração, transmissão e distribuição de eletricidade não podem ficar nas mãos de quem visa unicamente auferir lucros. A Eletrobras prioriza o bom atendimento ao invés do lucro, sem abrir mão de uma parcela comedida deste.
Ao invés de se privatizar a Eletrobras, muito mais sensato seria trazer energia barata e garantida para o consumidor, principalmente o residencial. Para tanto, deve-se buscar acabar com as irracionalidades impostas ao setor elétrico. Hoje, pelas regras existentes, uma empresa geradora poderá não ser remunerada na proporção da energia que ela gerou. Consumidores industriais poderão ser levados a parar suas atividades para usufruírem lucro com a venda da eletricidade que lhes estava destinada. Assim, o setor elétrico transformou-se em um grande cassino com jogadores de alto poder de apostas. O interesse social não é considerado.
Por outro lado, não tem setor que torne mais idênticos partidos políticos de linhas antagônicas, como o elétrico. Os governos FHC, Lula e Dilma aprimoraram o caos de funcionamento e repartição do excedente econômico do setor. Aliás, este setor é o paraíso para os lobistas do capital auferirem lucros comparativamente fáceis, com discursos técnicos incompreensíveis para o leigo. Aliás, os técnicos do setor, razoavelmente distantes das forças políticas, econômicas e sociais, com frequência não explicam os graves problemas do setor com um linguajar que o leigo entenda. Todos falam eletriquês.

19 janeiro 2018

Identificação dos culpados

Paulo Metri – conselheiro do Clube de Engenharia
 
Ignacio Ramonet, editor-chefe do “Le Monde Diplomatique” por mais de 17 anos, escreveu o memorável artigo intitulado "Angleterre, crise totale", veiculado na edição de abril de 2001 deste jornal.
Em um artigo meu de novembro de 2009, escrevi sobre esse artigo de Ramonet:Ele (Ramonet) dizia que a epidemia de febre aftosa que se espalhava, naquela época, pelos campos britânicos, como toda epidemia, era consequência de um momento histórico preciso e não era por coincidência que estava acontecendo dentro de uma Inglaterra que foi utilizada, durante mais de vinte anos, como laboratório do ultraliberalismo. Ramonet dizia também que as decisões que permitiram, além de febre aftosa, a doença da vaca louca, inundações, regiões bloqueadas sobre a neve sem eletricidade, catástrofes ferroviárias etc., foram tomadas conscientemente e se basearam em dogmas neoliberais precisos, como a desregulamentação. Segundo ele, nos anos 80, em governos da Sra. Margaret Thatcher, deu-se as costas ao princípio da precaução e aniquilou-se a rede nacional de atendimentos veterinários. Posteriormente, eliminou-se, por algum tempo, até a vacinação de animais.
Na edição de 18/01/2018 do jornal “O Globo”, pode-se ler na manchete principal: “Pais reduziu em 33% verba para prevenir epidemias”. Até esta data, segundo os noticiários, morreram 35 brasileiros, vitimas da febre amarela. Então, não acusem, por favor, o aedes aegypti, nem o vírus da febre amarela, por estas 35 mortes. O carrasco desta e de outras carnificinas atuais e futuras chama-se Temer e seus agentes do terror, ocupantes de cargos de mando no seu governo ou legisladores da sua base. Com seus cortes nos programas sociais e devido às prioridades erradas, que estagnam a economia, o país retorna ao mapa da fome, doentes morrem nas filas dos hospitais, o desemprego campeia e, por aí, as desgraças podem ser desfiladas.
A grande novidade positiva é que, mesmo com a mídia dominada pelo capital, fazendo o papel sujo de buscar alienar a população, esta aparenta estar entendendo quais grupos arquitetaram e estão operando a obra de demolição do país, sob a batuta de Temer. Outra novidade que ajuda a convencer os recalcitrantes é o resultado de pesquisa realizada na Inglaterra e publicada no jornal “The guardian”: 83% dos ingleses são a favor da nacionalização da água, 77% a favor da nacionalização da eletricidade e do gás e 76% a favor da nacionalização das linhas férreas. Assim, a Inglaterra foi o laboratório do ultraliberalismo, que não deu certo, e o povo inglês deve ter sofrido, senão não teria esta opinião. É pena que a Thatcher não esteja viva para, com sua arrogância, saber o estrago que causou.
Contudo, sem retirar qualquer uma das minhas afirmações, sei que fiz uma injustiça com o Temer. Por questão didática, para facilitar a compreensão de assuntos complexos, às vezes, há a necessidade de certas simplificações durante uma exposição. E a simplificação feita, neste caso, é a que Temer não agiu sozinho. Ele é a figura mais visível do conjunto de forças políticas que planejaram e executaram o golpe. Golpe este contra a democracia e a sociedade brasileira. Os golpistas foram o conjunto de congressistas venais que apoiam Temer, completamente desvinculados dos interesses da sociedade, representantes da Justiça, do Ministério Público e da Polícia Federal, também desligados do povo, a quase totalidade da mídia e da elite econômica e, possivelmente, agências de inteligência de países estrangeiros.
O povo, infelizmente, seria ludibriado se não fossem abnegados, que não medem esforços para poder conscientizá-lo. E parece que estão conseguindo vencer a empreitada, tanto que Lula recebe o maior índice de intenção de voto nas pesquisas.

05 janeiro 2018

Livro de cabeceira

Autor desconhecido 

Um livro de cabeceira é revelador do dono da cabeceira. Fofoqueiros contam que todas as candidatas a concursos de beleza leem “O pequeno príncipe”, o que me deixa na dúvida se se trata da “síndrome das misses” ou é uma afirmação maldosa. Não é por outra razão que certas personalidades decoram títulos e sinopses de livros para poderem enfrentar entrevistadores.
Eu estava no palácio do Jaburu, naquela entrada cheia de árvores na qual o Gilmar Mendes foi fotografado indo para uma reunião, fora da agenda, com Temer, às vésperas de um dos julgamentos do presidente. Não sei como, mas consegui passar pela barreira dos seguranças que estavam na entrada. Eles dirigiam o olhar na minha direção e não me viam. Naturalmente, pensei que eu havia morrido e quem estava ali era minha alma. Contudo, não me lembrava de nenhuma situação próxima da morte, assim como não sabia o porquê de estar no Jaburu. Sentia-me do jeito que sempre me senti.
Decidi aproveitar e conhecer o palácio. Fui andando e me deparei com um salão no qual estavam figuras frequentemente vistas na televisão, todos eles políticos da base de governo do Temer. Ele próprio estava lá cercado de apoiadores. Não testei, mas, a estas alturas, estava seguro que era invisível. Se chegasse perto, o que eu faria com declarações estarrecedoras que ouvisse? Não teria provas para poder denunciar.
Na minha furtiva andança, cheguei à biblioteca do palácio. Notei que os livros devem ter sido comprados a metro por um funcionário que priorizava livros encadernados de cores variadas. Fiquei tentado a abrir as gavetas da bonita mesa central, mas me contive. Afinal de contas, não sou espião. Deveria acessar documentos comprometedores? Quem me escalou para tal tarefa? Depois me tranquilizei, porque o medo da Lava Jato já deve ter levado muitos políticos a “higienizarem” suas gavetas.
Passeei por todo o palácio. Já cansado, vi ao fim de um corredor uma porta semiaberta. Olhei lá dentro e não tinha ninguém. Era um quarto de dormir com uma cama de casal de respeito, ou melhor, uma cama de respeito de casal. Notei um livro em uma das mesinhas de cabeceira da cama. Voei para descobrir se era a Bíblia, o Torá, o Corão ou um que continha ensinamentos de entidades superiores que se manifestam nos terreiros. Poderia ser também “Irmãos Karamazov”, “A Elite do Atraso” ou o último do Piketty.
Cheguei perto e vi a marca de um carimbo com as palavras: “TOP SECRET”. Meu corpo gelou. Eu poderia lê-lo? Qual a penalidade por transgredir ao alerta? Obviamente, comecei a folheá-lo. Estava em português. Seu titulo era: “Recomendações ao Senhor Temer”. Em alguns minutos, identifiquei do que se tratava. Eram recomendações de algum órgão, entidade, grupo ou país para a ação de Temer no governo. Procurei encontrar a autoria, mas foi impossível.
Li trechos aleatoriamente, apesar de estar muito preocupado. Não queria que descobrissem que existia uma alma de esquerda, no palácio. Lembro-me de alguns trechos.
O Senhor será guindado a presidente por ordem nossa a nossos quadros espalhados em diversas instituições brasileiras, ditas públicas. Irá contribuir muito também a grande mídia, que nos pertence. Nunca esqueça isto. Assim como vamos colocá-lo lá, poderemos tirá-lo a qualquer instante.
Pelas informações da nossa inteligência, o Senhor é o homem talhado para a missão que estamos lhe destinando. O Senhor não tem nenhum amor pátrio e não sente nenhuma responsabilidade social. Gostamos de alertar aos nossos prepostos, para que nunca digam estar surpresos com as ordens emitidas: elas serão impatrióticas e antissociais. Nossos quadros na estrutura do seu país e a grande mídia, que irão lhe apoiar, darão explicações para seus atos de forma a confundir a população, com eufemismos e dissimulações.
Nós precisamos do Senhor para tomar as medidas que desejamos, pois outros teriam escrúpulos. O Senhor as tomará sem remorsos, segundo a análise psicológica da sua pessoa. Sabemos também que o Senhor nunca foi muito bem votado. Conseguia se eleger porque o seu partido, o PMDB, sempre elegeu muitos deputados. O Senhor não pode concorrer a cargos majoritários porque nunca irá ganhar. Então, o Senhor não precisa ser popular. Por outro lado, o Senhor sabe fazer muito bem o “toma lá, dá cá” de seus colegas fisiológicos. E o Senhor usufruirá com o poder, enquanto nos for útil.
Não tenha ideias de grandeza, porque o Senhor não é imprescindível. Existe uma lista de possíveis substitutos.
Precisamos do seu mercado para nossos produtos, por isso, nada de conteúdo local nas compras do Estado. Precisamos de seus recursos naturais, em especial do seu petróleo, portanto, deixe nossas empresas entrar em condições vantajosas. Nada da engenharia brasileira competir com a nossa em obras internacionais. Seu banco de desenvolvimento deve se concentrar em financiar a venda de grãos, minérios, proteína animal e outros produtos primários.
O segredo das ultracentrífugas brasileiras deve ser compartilhado. O Brasil deve assinar o Acordo adicional da Agência Internacional de Energia Atômica que obriga o Brasil a aceitar inspeções não programadas e de surpresa em qualquer unidade nuclear. A base de Alcântara também deve ser entregue aos Estados Unidos. O Brasil não precisa de submarino nuclear. O contrato de compra de caças suecos deve ser cancelado. A Eletrobras, o Banco do Brasil, a Caixa e, por último, a Petrobras têm que ser privatizados.”
“Outras determinações serão dadas posteriormente, à medida que se façam necessárias. A presidente Dilma será deposta em dias. Prepare-se para assumir.”
Depois desta leitura e de muita indignação, acordei deprimido e passando mal.

Recebido pelo Whatsapp

25 novembro 2017

Lula, gênio da raça

Paulo Metri – conselheiro do Clube de Engenharia e do CREA-RJ

O Brasil, pela sua Constituição, é uma República, apesar do topo da pirâmide se considerar como membros da realeza. O sistema de governo brasileiro, segundo a mesma Constituição, é presidencialista, por duas vezes ratificado pela sociedade através de plebiscitos, para desespero de congressistas que gostariam de deter o poder do país indefinidamente.
No presidencialismo, para o bem ou para o mal, muito poder é colocado nas mãos do presidente da República. Na maioria dos modelos de parlamentarismo, o presidente passa a ser uma figura meramente decorativa, sem poder. Eleições para presidente com este parlamentarismo se trata de mais uma tentativa de ludibriar a sociedade, desta vez com “eleições para mudar o presidente, que nada irá mudar”.
Dentro de um quadro hostil para candidatos compromissados com a sociedade, Lula foi eleito pela primeira vez presidente do Brasil em 2.002. Conseguiu um feito inacreditável uma vez que a sociedade brasileira não ficou politizada do dia para a noite. Principalmente a Globo, mas também os demais canais de TV, a Veja, a Isto é, o jornal Globo, o Estadão, a Folha, enfim, toda a mídia convencional brasileira continuava influenciando enormemente a nossa sociedade a favor dos interesses dos donos do capital, inclusive o internacional.
Ao abandonar o discurso raivoso de campanhas anteriores e usando a sua extraordinária capacidade de comunicação, Lula começou a atingir níveis de aprovação da sociedade preocupantes para o capital que, à época, carecia de alguma “solução brilhante”, como tinha sido Collor em 1.989. Mas o capital com sua poderosa mídia, insatisfeito, podia fazer alguma diabrura contra a sua candidatura.
Nesta altura, Lula fez um pacto com o diabo, imagino eu, se comprometendo a, se eleito, não mexer em alguns dos domínios do capital, como a mídia e os rendimentos dos “rentistas”. Ainda na minha compreensão, recebeu em troca a garantia que poderia tomar medidas nas áreas da educação, saúde e outras de grande impacto social sem receber oposição radical. Este pacto teria sido selado pela enigmática “Carta ao povo brasileiro”. Certamente, esse pacto, se existiu, facilitou muito a sua eleição. Intermináveis discussões ocorrem, neste ponto, quando os adeptos da “ética de princípios” e os da “ética de resultados” se colocam.
Os oito anos do governo Lula não compuseram o melhor governo que a população brasileira poderia receber, mas formaram um governo infinitamente melhor que todos os recentes que o país teve. Estou retirando os governos Vargas e Goulart da comparação, pois eram diferentes mundos, então. Não vou perder dígitos preciosos para listar os benefícios sociais que Lula trouxe para o povo brasileiro, pois não quero alongar este artigo. Também, as pessoas, que ainda hoje não reconhecem os benefícios do governo Lula, são aquelas que têm interesses inconfessáveis e é perda de tempo argumentar logicamente com elas.
Por outro lado, infelizmente, todos nós iremos morrer de forma inexorável. No entanto, dependendo de vários fatores, a estadia de cada um na Terra pode ter durações e graus de felicidade variados. Lula e alguns outros presidentes do Brasil prolongaram a estadia de brasileiros na face da Terra com razoável grau de felicidade. Estes presidentes aumentaram a longevidade e a qualidade de vida, basicamente, dos mais carentes. Isto acontece porque programas de inclusão social fazem a população se alimentar melhor, ter um atendimento de saúde melhor etc.
Em compensação, outros presidentes, à medida que retiram conquistas sociais já ocorridas, que significaram no passado o prolongamento e a melhoria da vida, são “encurtadores” da vida de brasileiros e “destruidores” da sua qualidade. Não tenho dúvida que Temer, dentre as várias desqualificações que possui, é um dos presidentes “encurtadores e destruidores” da vida dos brasileiros. Ele comete estes crimes à medida que, por exemplo, dificulta o acesso da população à saúde, dificulta a obtenção da aposentadoria, diminui o salário médio dos trabalhadores e aumenta a taxa de desemprego, resultando em carência alimentar da população.
Outra área de atuação brilhante de Lula foi a da política externa, graças também aos conselhos de Marco Aurélio Garcia e Celso Amorim. Com grande discernimento, entendeu rapidamente que era preciso agir de forma soberana para poder beneficiar a sociedade brasileira. Enfim, Lula é um gênio da raça porque, com toda a conspiração midiática e de grupos do capital, conseguiu ser um presidente “prolongador” da vida dos brasileiros e autor da melhoria da qualidade de vida deste povo.

27 outubro 2017

Global Power and Brazilian Nuclear Decisions

(Apresentado no INAC 2017)
 

Paulo Metri

 

ABSTRACT

 
Brazilian society declares no intention to development a nuclear artifact. This is on its Constitution. The submarine of nuclear propulsion may be used as a weapon of defense and, therefore, has a peaceful objective. Nationalism must be applied only to benefit the society. Nationalist attention has always been devoted, at various occasions, to the Brazilian nuclear sector. However, since Brazilian society has many needs and the Brazilian government always had numerous energy options, this sector has not been developed as it could be. Other successful applications of nuclear technology, besides electric generation, are not considered here. At present, the country is experiencing a moment of harassment of liberal forces. It is difficult to know if the population understands what is going on, due to the traditional media control.  This media belongs to the capital. The rise and the fall of the nationalist strand in a country follow a global tendency and also depend of actions of the international capital. In nationalist periods, more decisions with positive social impact are taken. Therefore, sovereignty is necessary to increase the benefits to society. Unfortunately, the Brazilians deceived by the companies of mass communication and corrupt political leaderships allow the country to be dominated. Even the armed forces had their projects paralyzed. The nuclear sector, as all other, suffers with the low budget and the future is difficult to predict.

 
1. INTERSECTION OF THE NUCLEAR SECTOR AND NATIONALISM

Nationalist attention has always been dedicated to the Brazilian nuclear sector at various times. However, because Brazil is a country with many needs and has so many energy options, the nuclear sector has not been completely developed, which would be beneficial for society itself. Nevertheless, what has been done represents a reasonable advance for a latedeveloping country.

The Brazilian position about nuclear issues in international forums has always been an extreme commitment to our society. The most characteristic event of the rectitude of a representative of ours occurred with Admiral Alvaro Alberto when the US government proposed that the world reserves of thorium and uranium be “internationalized”, the called Baruch Plan. In short, this plan tried to install the control of these reserves by an international agency which would suffer strong influence of the US government [1] [2] [3].
 
On this occasion, the Admiral voted against the proposal, which he called "the United States attempt to expropriate world reserves" and proposed the Principle of Specific Compensation, which meant that no trade transaction with strategic minerals should be made with currency payment, but through the provision of technology. Underdeveloped countries, usually reserve owners, would provide the desired ore and would receive technologies.
 
Admiral Álvaro Alberto was also the responsible for the purchase of three centrifuges for uranium enrichment in post-war Germany to bring them to Brazil. This operation did not result in success. However, it proves that he was conscious, in 1954, about the importance of this technology for Brazil.
 
In 1962, the creation of the Nuclear Engineering Institute (IEN), together with the construction of the Argonauta research reactor, completed in 1965 with a 93% nationalization index, represented a reaction of Brazil to the United States program "Atoms for Peace", which planned to create dependence of developing countries on nuclear technology [5] [6].
 
Taking a leap in History of a dozen years, under General Geisel's presidency, in 1975, Brazil closed a Nuclear Agreement with Germany, which was very ambitious, but was concerned about the transfer of nuclear technology to Brazil [4]. As a consequence of this transfer, for many years, Brazil is manufacturing the fuel elements for the Angra I and Angra II plants. During the construction of Angra II, technologies were absorbed and some components were manufactured at NUCLEP. Unfortunately, knowledge is being lost due to lack of continuity in the construction of the plants.
 
The peak of the demonstration of wanting the best for the Brazilian society occurred with the constitution of the Parallel Nuclear Program. The ultimate goal has always been to endow the country with the powerful defense weapon, the submarine with nuclear propulsion. It is known that no country in the world sells this submarine. Thus, Brazil is obliged to develop the necessary technologies to possess it, being the main ones, the uranium enrichment and the construction of the compact reactor. The submarine needs other technologies to be developed, but, related to nuclear energy and with a high degree of complexity, there are only these two.
 
With respect to the development of uranium enrichment, there was great success, thanks to the Navy and IPEN team, coordinated by Vice Admiral Othon Pinheiro da Silva. The ultracentrifuges developed by this team performed above the best available at the time. However, the greatest value of the team was not their technical culture, which was great, nor their inventiveness. It was, above all, their commitment to Brazilian society. All team members struggled to achieve this great conquest. 


2. MOVEMENT OF INTERNATIONAL CAPITAL
 
A new wave of liberalism in the economy emerged a few years ago and persists to these days in most countries of the world. As it happens sometimes, the interests of capital collide with the interests of society. Also, at present, there is the prevalence of the interests of international capital over the ones of regional capitals in peripheral countries. On the other hand, in relation to privatizations, the minimum state, the withdrawal of customs barriers and the free flow of capital and so on, these capitals show unity of position.
 
Macron in France, Macri in Argentina, Kuczynski in Peru, Mario Monti in Italy, Peña Nieto in Mexico, Temer in Brazil and others [18] have in common that they have been driven to power with strong support from the capital and the media. Generally speaking, the capital wants in return of its support the transfer of resources related to the social achievements in years of workers' struggles to increase the profitability of capital. Also, in peripheral countries, the foreign capital wants to receive natural resources, productive facilities and the opening of the domestic market.
 
The changes promised by these elected, stated as beneficial to society, with some variations from country to country, consist of the reform of social security and labor legislation, greater restriction in the granting of unemployment insurance, business conditions more attractive to capital owners, privatizations, reduction of State size, responsible public accounts, reduction of taxes, free market and globalization.
 
As already mentioned, capital has managed to win elections around the world, with a great support of the media, which is its instrument of power. Media channels committed to society are very few everywhere. In these circumstances, the freedom of the press has been in practice that of the capital to manipulate the information. In the battle of information, proponents of neoliberal change argue that it brings greater efficiency, not saying that this efficiency is related to the profit generation and, unfortunately, not to the social welfare obtained.
 
However, not all is lost. There are signs that the future may be different, as new alternatives emerge [18]. In Spain, the "Podemos" on the left is a hope. The "France Insubmissa" is another reason for joy. The new leader of the English Labor Party, Jeremy Corbin, beats recent leaders of the same Party. In Mexico, Lopez Obrador of the National Regeneration Movement may come to power and reverse the current anti-national oil policy. Even in the United States, right wing paradise, the candidacy of Bernie Sanders, in the Democratic primaries, brought the hope of an outcome always considered impossible.
 
But the right has the primacy in the Western world. In Brazil, seems that it has badly chosen its representative. For obvious reasons, Temer will not have the political strength to approve all "reforms", which was the task that he received. Today, it is very difficult to predict the future of Brazil and say who will win the 2018 elections, if the right or the left. Even to say how a conservative or progressive government will decide about nuclear issues, it is not easy.
 
In the political world, where there is little nexus for the common citizens, thanks to a lot of dissimulation, there is a great disinterest among them. It is even difficult to predict whether the population's complacent posture will continue or whether this population will be discussing and analyzing with exemption the situations.
 
At the moment, Brazil is experiencing the siege of neoliberal forces. Sometimes, appears that the population begins to sketch some reaction, in spite of all the media control exerted on her. There is a heavy information control that not even the military with their censors did. Today, if it was not the social networks, which seek to raise public awareness, the population would not know what is happening and, in the next election, would vote against their own interests.
 
The relations between countries and the development of each one explain, in part, the rise and fall of the nationalist dimension in some of them. It is obvious that when the country is in a sovereign phase, neoliberal decisions do not exist. Thus, in the nationalist phase, more decisions of social interest are taken. Therefore, one should seek to increase the degree of sovereignty for the enjoyment of society. In the present phase, there is extreme invasion of the colonized countries by their colonizers in order to increase the degree of domination for their usufruct. Countries with a high degree of sovereignty protect their markets, their strategic sectors of industries and services, their universities, their sources of technology and their culture.
 
We always were part of the zone of influence of the United States, but we had presidents with more concern with sovereignty, like Vargas, Goulart and Geisel. During the Lula and Dilma governments, Brazil showed some "rebellions" in the quest for a greater degree of sovereignty, such as when it joined the BRICS countries, by participating in the creation of a BRICS-linked development bank, in forming UNASUR, with the agreement to all transactions of BRICS countries be into their currencies, by buying technology of the fighter airplane and the conventional submarine, while seeking to develop the nuclear submarine, by approving the pre-salt sharing contract, by supporting local purchases, and so on. All these attitudes were not to the liking of international capital, but they were in the interest of Brazilian society. Today, Brazil's degree of sovereignty is low. It can be said that Brazil is currently a success of domination by capitals and foreign countries.
 

3. MEDIA DOMINATION


Noam Chomsky well describes the process of media domination. It is important not forget that this media belongs to capital. According to him, there are principles, which must be followed by the media to achieve the domination of public comprehension of events. This media does not report necessarily the reality. It can also create supposed facts that satisfy the interests of the dominators. The process of domination uses knowledge of neurology, applied psychology and others, for the control of the preferences and the opinions of the population by the elite.
 
Some of the principles described by Chomsky [16] are the following: (1) fake information and even some reliable information should be inserted in the midst of the entertainment programming of TV; (2) one can lie and not show facts at will as long as the version that goes to the public is feasible; (3) problems can be created for desired positions to be imposed; (4) an unpopular measure presented in parts facilitates its acceptance; (5) the time lapse between the approval by Congress of an unpopular measure and its beginning of application must be large; (6) communication with the general public should occur as if it were addressed to the mentally weak because, acting in this way, a critical reaction is not stimulated; (7) the quality of education given to the less favored social class should be as superficial as possible, so that there will be a great distance between the awareness of this class and that of the elite; and (8) the most inhuman of all, which is to make the individual believe that he alone is to blame for his own misfortune, because of his lack of intelligence, incapacity and insufficient efforts.
 
Long before Chomsky, in the first half of the last century, Edward Bernays [15], called as the "father of public relations", was already aware of the manipulation of the masses, so much that he said: "Those who manipulate this invisible mechanism of society constitute a government. In almost every act of our daily lives, be it in the sphere of politics or business, in our social conduct or our ethical thinking, we are dominated by a relatively small number of people, who understand the mental processes and social patterns of the masses. They pull the wires that control the public mind."
 
In this context of domination of societies, armed forces are replaced by efficient entertainment and communication companies. One does not disembark anymore in beaches to dominate a country. Just have a competent communication company and start to spread many misconceptions, such as: (1) Brazil can develop thanks to the massive inflow of foreign capital into the country; (2) the best index to measure a country's growth is GDP (nothing being said about the difference between economic and social growth and the HDI); (3) there is no industrial sector that requires the existence of state-owned companies; (4) in sectors with a predominance of private companies, regulatory agencies will avoid agreements that cause damage to society; (5) Brazil can have its physical security guaranteed by the United States, not needing to spend on costly military projects; (6) for more than 150 years, Brazil has not been in conflict with any of its neighbors, which corroborates the thesis that it does not need to have strong armed forces; (7) import barriers, also known as market reserves, only serve to create technological backwardness and inefficient production; (8) in order to attract foreign capital, important for our development, we should minimize taxes in general on productive activity. Obviously, if the society adheres to these thoughts, the country ceases to be sovereign.

 
4. CONCLUSIONS
 
Any analysis of the future of the nuclear sector in Brazil depends on the future of the country, that is, its economy, its political organization, its international relationships and the degree of awareness of its society. What is left of 2017 and 2018 will be a bustling time from the political point of view, which will have repercussions for some time in all areas. As it happens with any prognosis, it will also contain some degree of subjectivity.
 
Beside these facts, the positioning of the country, after January of 2019, will be a consequence of the new president and the new Congress, both elected at the end of 2018. Since capital will probably continue financing its candidates, media will stay manipulating information and people will remain understanding very few of what is going on, things will not change too much in the political world. Society needs a break through as an educational revolution, a great participation of workers in unions, a media regulation or an ethical movement in the society, which will have repercussions in next election.
 
At this point, one must stop, because even experts in prospective analysis have difficulty to estimate how Brazil will be in 2019. Obviously, decisions about the nuclear sector will be different for each one of the Brazilian futures. But, it is certain that there will be few State resources for the construction of a new nuclear power plant or even to complete Angra III.
 
Foreign companies of construction and operation of nuclear plants want to change the Constitution so that the end of the State monopoly in this sector occurs. These companies will compete with those that produce electric energy from hydropower, wind, solar, in thermals from fossil fuels etc. Certainly, foreign nuclear generation companies must have security that can generate kWh cheaper than those generated with the other sources. Other option, that does not need to modify the Constitution, is an agreement between the State owned company Eletronuclear and Chinese or Russian firms to construct and operate nuclear power plants, being Eletronuclear the main contractor.
 
Since there are, in nowadays, two great groups of military and political power in the world
[14], the United States plus OTAN in one side, and the Shanghai group in the other, a new
“Cold War” already started. In periods when there is a division of the world power, nonallied countries may gain some advantages.
 
Only one of the applications of nuclear energy is being analyzed, but it is the one that receives the largest volumes of resources. There are applications in Health, Industry, Agriculture and others, that are being successful as well. The technology for using nuclear energy in the propulsion of submarines is being developed in Brazil not at the desirable speed because there is a lack of resources as well, in total disagreement with the country's defense needs.
 
Unfortunately, a part of the investments made in the past, in order that Brazil would dominate the nuclear generation technology, was thrown away. The greatest sadness of underdeveloped countries is not the lack of resources to implement their various projects. The greatest sadness is the fact that, since resources are scarce, a part of these resources is being completely lost. To overcome this difficulty, it would be opportune to draw up a National Project, together with society, to be a guideline for the future governments. A nuclear program, as well as a defense program, must be programs that belong to the Brazilian State and not to the government in course. This means that, if the construction of a nuclear power plant is decided, for example, in a progressive government, that was followed by a conservative one, this last government had to continue the construction.
 
Due to media domination, today there are some misconceptions about Sovereignty, such as "geopolitics is a military subject" or "buying and developing weapons, even if they are only for deterrence, it means to lose money" or "foreign companies acting in our country bring the same impacts as genuinely national companies". It is missing to explain to the people that these misconceptions were implanted on them purposely.
 
It is amazing that, thanks to the large number of foreign companies established in the country, our generous law of profit remittances and the subservience of our current authorities, Brazil is far from being a stage of war, despite the weakness of its Armed Forces. In other words, the country has recently accepted all the impositions placed by international capital. In addition, Brazil is not on the border of world powers and it is not part of any valuable market route. The Pre-Salt was discovered here, but slavishly the country is delivering a substantial part of its oil, without a great return to society. In other words, we live in one of the capital dominated countries.
 
The exacerbated capitalism represents an exclusion model, but damages of this kind may be mitigated with strong regulation of the State, what is only possible if the country is sovereign. On the other hand, based on the recent experiences of the human species, in a short horizon, capitalism is the only applicable system of economic organization.
 
 
REFERENCES
 
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