16 fevereiro 2018

Enigma Tuiuti

Paulo Metri

O que é a Tuiuti, além da senhora escola de samba que nos presenteou com um inesquecível desfile no último domingo de carnaval?
Ela, finalmente, trará a libertação dos atuais escravos! Ao assistir o desfile da Tuiuti na avenida das consciências, senti que carece ao grupo dos brancos um pedido formal de desculpas aos irmãos negros pelos séculos de humilhação e exploração. Para poder ser válido, terá que ser um pedido verdadeiramente sentido. Enquanto sou também um encabulado integrante do grupo branco, peço perdão.
Tuiuti mostrou com justíssima indignação o sistema insensível por nós construído de exploração e maus tratos dos nossos semelhantes. A escola mostrou também ser uma arma letal para os malfeitores da sociedade, que, apesar de não estarem presentes, foram vistos nus no meio da Sapucaí.
Tuiuti apresentou a denuncia mais eficiente dos empedernidos e recalcitrantes vilões da sociedade. Desde os senhores de engenho aos atuais membros do Executivo, Legislativo, Judiciário e Ministério Público, que fazem sofrer a sociedade. Estavam todos lá, para os bons entendedores.
Trata-se do método lúdico para conscientização política, que lembra o de Paulo Freire com sua descrição precisa do real. Enquanto a mídia atual, pertencente ao capital, se esforça para incutir mentiras nas notícias ao povo, a Tuiuti em poucos minutos faz desabar estes castelos de mentiras. Também, teses erguidas sob areias movediças não se sustentam.
Tuiuti também deu vida aos desvalidos, desesperançados, membros do movimento dos sem mídia (MSM). Os coronéis latifundiários das comunicações se sentiam seguros que, controlando as notícias e, consequentemente, os governos, nunca seriam confrontados. Tinham segurança total do domínio das mentes brasileiras.
Tuiuti é a expressão máxima da bondade existente em todas as religiões. Veio atender ao chamado dos mais carentes, cujas “fortunas” igualam as dos cinco homens mais ricos, em horrendo disparate. Mães começam a pedir que a Tuiuti proteja seus filhos. Hoje, os perseguidos podem se proteger, com alguma dose de blefe, dizendo: “se você não parar com esta agressão, vou chamar a Tuiuti”.
O efeito Tuiuti na política é óbvio, até porque o desfile foi político, com tema corretamente colocado, e a escola mostrou ser um grande instrumento de ação política e mobilização social. Como o Rio é a grande caixa de ressonância do Brasil, o efeito Tuiuti foi expandido. Se Temer tinha ainda alguma esperança de aprovar sua reforma da previdência, graças ao desfile, se conscientizou que não conseguirá. A saída honrosa, mas horrorosa, que Temer tomou para não sair todo chamuscado com o arquivamento da reforma ou ser humilhantemente derrotada no Congresso, foi invadir o Rio de Janeiro. Agora, a reforma ficará em estado de espera, que por ele será bem longo.
Ela é tudo isso e muito mais. Não se pode deixar de dizer que o carnavalesco Jack Vasconcelos é um gênio. Enfim, como disse o amigo Olavo, que não é o que se auto intitula filósofo: “Tuiuti lavou minha alma”.

10 fevereiro 2018

João, João, Fernando e Eurico

Paulo Metri – conselheiro do Clube de Engenharia

O Quinzinho não se chama Marcos e muito menos Quincas. A razão de lhe chamarem assim é porque ele não gostava de ser João de Souza, quando ingressou no tráfico. Com certeza não teve boa vida durante os primeiros 15 anos de sua existência. Conheceu, sim, a agressão máxima que um ser humano é capaz de suportar.
Recebeu agressão do Estado brasileiro, que lhe negou as condições mínimas de sobrevivência, que não deveriam ser negadas a nenhum brasileiro. Foi agredido pelo pai que lhe contemplou com ausência absoluta, deixando o padrasto em situação privilegiada, porque este estava sempre presente para a surra diária. Era agredido pela mãe, involuntariamente, pois o deixava com a vizinha, uma vez que tinha que ir trabalhar. Esta não o alimentava direito. Sentia muita fome na infância.
Desde muito jovem sentia atração para ir para o tráfico, pois sabia que se usasse a coragem e a inteligência que tinha, seria respeitado. Passou a ostentar um revolver aos 15 anos e sentiu que o tráfico era sua única chance de acesso a dinheiro, poder local e garotas da comunidade. Não se perguntava durante quanto tempo isto iria ocorrer. A solidariedade social era restrita aos moradores da comunidade que ficavam calados e não denunciavam seu grupo. Durante seu desenvolvimento, a única alternativa que teve foi ser marmiteiro, que ele rejeitava.
O outro João, mais conhecido como Da Silva, nunca repudiou seu nome, mas o instrutor da corporação, quando ele entrou, escolheu lhe chamar desta forma. Quando criança, achava bonito o uniforme de policial. Depois de certa idade, deixou de dizer que queria ser policial, devido à cobertura dos tiroteios pela TV e dos funerais de soldados. Mas, a crise da economia deixou um exercito de desempregados no país e lhe ceifou alternativas de profissão.
Não era bom atirador e relutou a aderir aos subornos, colocando-se na linha de frente, como policial descartável. Na verdade, tinha orgulho de participar da corporação. Não acreditava que seus superiores pudessem ser corruptos. Sentia-se bem em proteger o desprotegido, apesar de ser um revoltado quanto ao seu salário. Conseguia levar o mínimo para casa para sua família não morrer de fome. Sua mulher cansava de lhe dizer para procurar ser segurança de um supermercado, de empresas ou de grã-finos porque ela não queria ficar viúva.
Fernando é um funcionário público, altamente qualificado, pesquisador da Fiocruz e participante do grupo que procura criar vacinas e remédios para algumas doenças tropicais. Profissionalmente está no local certo, pois vibra com o que faz. Só reclama porque o governo vive cortando verbas de pesquisa, além dos já cortados salários. Conclui que o Governo quer mesmo que continuem brasileiros morrendo por falta de vacinas e remédios.
No dia 6 de fevereiro de 2018, Quinzinho, Da Silva e Fernando não sabiam, mas tinham um encontro marcado na Linha Amarela. Traficantes e policiais, mais uma vez se desentenderam e trocavam muitos tiros, mas realmente muitos. Fernando e sua esposa foram assinar um documento formal em um cartório e voltavam para casa, quando foram surpreendidos pela cena de terror explicito. Empurrados pelo tráfego intenso, foram parar na zona mais quente da “Faixa de Gaza”. Os dois não tiveram alternativa, a não ser se proteger atrás da mureta de uma escada para a passarela.
Foi, no mínimo, uma hora de muito medo. Presenciaram o cidadão que queria ter seus segundos de glória e chegava a se expor para gravar pelo celular o que acontecia. Ele ouvia as pessoas dizendo: “não levanta”, mas precisava daquele vídeo e continuava em pé gravando. Ao mesmo tempo gravava um discurso confuso, pois dizia que a saída era ir para Miami, como se fosse possível a população do Rio de Janeiro ir toda para lá.
Da Silva estava próximo, mas atrás de outra mureta, a da divisória de pistas. Os traficantes aparentemente estavam ganhando, pois atiravam mais. A posição no alto era vantajosa, assim como a irregularidade do conjunto da comunidade ajudava muito a eles para se esconder. Quando Da Silva achava que via uma cabeça saliente na silhueta da favela, se esticava, mirava e atirava. Mas não demorava muito tempo se expondo. Não pensava na vida do traficante, pois “era ou a minha ou a dele”.
O traficante, no seu mundo incompreensível para a maioria de nós, só pensava em destruir todos que ameaçassem seu negócio, sua razão de vida. Apesar de muito corajosos todos queriam sair dali com vida. A esposa de Fernando mais que tremia, chacoalhava. Atrás daquela sinfonia de estampidos, depois de cada um deles, uma vida, que demorou anos para chegar a um estágio avançado de desenvolvimento, poderia estar tombando. Esta é a cruel realidade sobre a qual todos nós deveríamos chorar: “atrás de cada estampido, uma vida pode estar sendo extinta”.
Depois de muito tempo com os afagos mortais, os traficantes se recolheram aos seus esconderijos, parecendo vietcongues que, para espanto dos norte americanos, evaporavam na floresta. Os policiais, dando graças a Deus porque nenhum companheiro foi abatido, também se recolheram. Fernando, esposa e todos que participaram do safari da Maré pegaram seus carros e, agora, relatam seus feitos que, na verdade, se resumem em grande imobilidade. No caso do Fernando, se uma bala perdida o achasse, teria atingido o personagem, dentre todos os aterrorizados inocentes da redondeza, que mais contribuía socialmente. O que mostraria a injustiça da aleatoriedade.
Pode-se e deve-se pensar em quem são os culpados. Todos os que governam de forma excludente. Os políticos, os do Executivo, os do Legislativo, os do Judiciário e os do Ministério Público são culpados. Sim, hoje o Judiciário e o Ministério Público são compostos, na sua maioria, de políticos. São culpados também aqueles que, sendo empresários, não se satisfazem com o acumulo de riqueza que cinco gerações suas terão dificuldade em gastar. São todos aqueles que buscam iludir a população para usufruírem de sua ignorância. Neste grupo, está a mídia, mas ela não está sozinha. Os traficantes são grandes culpados. Na verdade, eles são seres maus, assim como os policiais corruptos.
Existe uma realidade pouco compreendida entre nós. A péssima distribuição de renda do Brasil é um fator indutor da violência. O raciocínio na cabeça de qualquer um é simples: “se cinco empresários brasileiros possuem a mesma riqueza que os 50% mais pobres da população” é porque, neste país, vale a exploração mais desumana. Então, retirando o dano à saúde do usuário, para o qual não há perdão, por que os traficantes são culpados de criar dependência e roubar os usuários? Os crimes do colarinho branco já foram banalizados e perdoados, e os demais, não?
O Eurico trabalha no escritório do pai, uma banca de advocacia especializada em assessoramento de empresas de mineração estrangeiras com relação ao ambiente jurídico e político do Brasil. Recentemente, ganhou rios de dinheiro ao conseguir que o Executivo isentasse por 22 anos o pagamento de impostos de petrolíferas. Elas tinham direito a só mais quatro anos de isenção. Ele tem ódio de ter que morar no Brasil.
Todos que assistiram ao Jornal Nacional, naquela noite, não entenderam o porquê de tanta violência.

22 janeiro 2018

Privatização da Eletrobras

Paulo Metri

Segundo William Bonner, o telespectador médio brasileiro é “um Homer Simpson” e a Globo, empresa que o emprega, não se preocupa, em momento algum, em informar todos os ângulos de um fato, assim como desenvolver o pensamento crítico dos expectadores. As matérias carecem de análises a partir de diferentes visões, restringindo-se às posições de interesse do capital, que prefere o telespectador brasileiro bem inocente e alienado, passível de ser facilmente enganado. Assim, eles formam Homer Simpsons.
Mas não é só a Globo que age desta forma. Trata-se de um comportamento de toda a mídia tradicional, que engloba os demais canais de TV, tanto os abertos, quanto os a cabo ou por sinal de satélite, todos grandes jornais, quase todas as revistas semanais e as rádios comerciais. Só a mídia alternativa defende o povo. No governo Temer, como todas as propostas de reformas beneficiam o capital em detrimento da sociedade, o controle da mídia está sendo muito útil para estes inimigos do povo.
O prejuízo causado pela mídia do capital à sociedade brasileira, como, por exemplo, através da reforma trabalhista, que fez regredir a proteção ao trabalhador quase àquela existente na época da revolução industrial, tem como grande responsável esta mídia. Desta forma, a privatização da Eletrobras é a próxima investida do capital. Só um sociopata, que não sente remorsos por ações antissociais, pode atingir o grau de crueldade existente no esquartejamento da Petrobras e nesta privatização. Tem horas em que a inocência do povo chega a ser um benefício para ele, pois o que adianta entender a desumanidade com que lhe tratam e estar impossibilitado de reagir?
A privatização da Eletrobras chega às raias do absurdo, uma vez que, ao privatizá-la, privatiza-se também a água, uma necessidade humana. Os ideólogos do neoliberalismo vivem falando em “competição perfeita”, que é difícil de ser encontrada no mundo real. Da mesma forma, não existe agência reguladora que tenha o poder de ditar normas para poderosas proprietárias privadas de aproveitamentos hidráulicos.  É impossível que uma agência reguladora, ainda mais no governo Temer, mande uma geradora privada reter água na barragem, sem gerar eletricidade, porque ela será necessária para o abastecimento humano, por exemplo. Os ocupantes de cargos de direção em agências reguladoras, no Brasil, têm sido escolhidos pelas empresas privadas a serem reguladas pelo órgão.
Geração de eletricidade é um dos usos da água de uma bacia hidrográfica e, inclusive, não é dos mais nobres. Alguns usos da água, ordenados pela nobreza, sob a minha ótica pessoal, são o abastecimento humano e animal, a irrigação, a piscicultura, a geração elétrica, o uso do leito do rio para navegação e o turismo. Se este argumento não bastar para a Eletrobras não ser privatizada, a eletricidade é um insumo básico em qualquer economia, além de ser um consumo residencial indispensável. Assim, as empresas encarregadas da geração, transmissão e distribuição de eletricidade não podem ficar nas mãos de quem visa unicamente auferir lucros. A Eletrobras prioriza o bom atendimento ao invés do lucro, sem abrir mão de uma parcela comedida deste.
Ao invés de se privatizar a Eletrobras, muito mais sensato seria trazer energia barata e garantida para o consumidor, principalmente o residencial. Para tanto, deve-se buscar acabar com as irracionalidades impostas ao setor elétrico. Hoje, pelas regras existentes, uma empresa geradora poderá não ser remunerada na proporção da energia que ela gerou. Consumidores industriais poderão ser levados a parar suas atividades para usufruírem lucro com a venda da eletricidade que lhes estava destinada. Assim, o setor elétrico transformou-se em um grande cassino com jogadores de alto poder de apostas. O interesse social não é considerado.
Por outro lado, não tem setor que torne mais idênticos partidos políticos de linhas antagônicas, como o elétrico. Os governos FHC, Lula e Dilma aprimoraram o caos de funcionamento e repartição do excedente econômico do setor. Aliás, este setor é o paraíso para os lobistas do capital auferirem lucros comparativamente fáceis, com discursos técnicos incompreensíveis para o leigo. Aliás, os técnicos do setor, razoavelmente distantes das forças políticas, econômicas e sociais, com frequência não explicam os graves problemas do setor com um linguajar que o leigo entenda. Todos falam eletriquês.

19 janeiro 2018

Identificação dos culpados

Paulo Metri – conselheiro do Clube de Engenharia
 
Ignacio Ramonet, editor-chefe do “Le Monde Diplomatique” por mais de 17 anos, escreveu o memorável artigo intitulado "Angleterre, crise totale", veiculado na edição de abril de 2001 deste jornal.
Em um artigo meu de novembro de 2009, escrevi sobre esse artigo de Ramonet:Ele (Ramonet) dizia que a epidemia de febre aftosa que se espalhava, naquela época, pelos campos britânicos, como toda epidemia, era consequência de um momento histórico preciso e não era por coincidência que estava acontecendo dentro de uma Inglaterra que foi utilizada, durante mais de vinte anos, como laboratório do ultraliberalismo. Ramonet dizia também que as decisões que permitiram, além de febre aftosa, a doença da vaca louca, inundações, regiões bloqueadas sobre a neve sem eletricidade, catástrofes ferroviárias etc., foram tomadas conscientemente e se basearam em dogmas neoliberais precisos, como a desregulamentação. Segundo ele, nos anos 80, em governos da Sra. Margaret Thatcher, deu-se as costas ao princípio da precaução e aniquilou-se a rede nacional de atendimentos veterinários. Posteriormente, eliminou-se, por algum tempo, até a vacinação de animais.
Na edição de 18/01/2018 do jornal “O Globo”, pode-se ler na manchete principal: “Pais reduziu em 33% verba para prevenir epidemias”. Até esta data, segundo os noticiários, morreram 35 brasileiros, vitimas da febre amarela. Então, não acusem, por favor, o aedes aegypti, nem o vírus da febre amarela, por estas 35 mortes. O carrasco desta e de outras carnificinas atuais e futuras chama-se Temer e seus agentes do terror, ocupantes de cargos de mando no seu governo ou legisladores da sua base. Com seus cortes nos programas sociais e devido às prioridades erradas, que estagnam a economia, o país retorna ao mapa da fome, doentes morrem nas filas dos hospitais, o desemprego campeia e, por aí, as desgraças podem ser desfiladas.
A grande novidade positiva é que, mesmo com a mídia dominada pelo capital, fazendo o papel sujo de buscar alienar a população, esta aparenta estar entendendo quais grupos arquitetaram e estão operando a obra de demolição do país, sob a batuta de Temer. Outra novidade que ajuda a convencer os recalcitrantes é o resultado de pesquisa realizada na Inglaterra e publicada no jornal “The guardian”: 83% dos ingleses são a favor da nacionalização da água, 77% a favor da nacionalização da eletricidade e do gás e 76% a favor da nacionalização das linhas férreas. Assim, a Inglaterra foi o laboratório do ultraliberalismo, que não deu certo, e o povo inglês deve ter sofrido, senão não teria esta opinião. É pena que a Thatcher não esteja viva para, com sua arrogância, saber o estrago que causou.
Contudo, sem retirar qualquer uma das minhas afirmações, sei que fiz uma injustiça com o Temer. Por questão didática, para facilitar a compreensão de assuntos complexos, às vezes, há a necessidade de certas simplificações durante uma exposição. E a simplificação feita, neste caso, é a que Temer não agiu sozinho. Ele é a figura mais visível do conjunto de forças políticas que planejaram e executaram o golpe. Golpe este contra a democracia e a sociedade brasileira. Os golpistas foram o conjunto de congressistas venais que apoiam Temer, completamente desvinculados dos interesses da sociedade, representantes da Justiça, do Ministério Público e da Polícia Federal, também desligados do povo, a quase totalidade da mídia e da elite econômica e, possivelmente, agências de inteligência de países estrangeiros.
O povo, infelizmente, seria ludibriado se não fossem abnegados, que não medem esforços para poder conscientizá-lo. E parece que estão conseguindo vencer a empreitada, tanto que Lula recebe o maior índice de intenção de voto nas pesquisas.

05 janeiro 2018

Livro de cabeceira

Autor desconhecido 

Um livro de cabeceira é revelador do dono da cabeceira. Fofoqueiros contam que todas as candidatas a concursos de beleza leem “O pequeno príncipe”, o que me deixa na dúvida se se trata da “síndrome das misses” ou é uma afirmação maldosa. Não é por outra razão que certas personalidades decoram títulos e sinopses de livros para poderem enfrentar entrevistadores.
Eu estava no palácio do Jaburu, naquela entrada cheia de árvores na qual o Gilmar Mendes foi fotografado indo para uma reunião, fora da agenda, com Temer, às vésperas de um dos julgamentos do presidente. Não sei como, mas consegui passar pela barreira dos seguranças que estavam na entrada. Eles dirigiam o olhar na minha direção e não me viam. Naturalmente, pensei que eu havia morrido e quem estava ali era minha alma. Contudo, não me lembrava de nenhuma situação próxima da morte, assim como não sabia o porquê de estar no Jaburu. Sentia-me do jeito que sempre me senti.
Decidi aproveitar e conhecer o palácio. Fui andando e me deparei com um salão no qual estavam figuras frequentemente vistas na televisão, todos eles políticos da base de governo do Temer. Ele próprio estava lá cercado de apoiadores. Não testei, mas, a estas alturas, estava seguro que era invisível. Se chegasse perto, o que eu faria com declarações estarrecedoras que ouvisse? Não teria provas para poder denunciar.
Na minha furtiva andança, cheguei à biblioteca do palácio. Notei que os livros devem ter sido comprados a metro por um funcionário que priorizava livros encadernados de cores variadas. Fiquei tentado a abrir as gavetas da bonita mesa central, mas me contive. Afinal de contas, não sou espião. Deveria acessar documentos comprometedores? Quem me escalou para tal tarefa? Depois me tranquilizei, porque o medo da Lava Jato já deve ter levado muitos políticos a “higienizarem” suas gavetas.
Passeei por todo o palácio. Já cansado, vi ao fim de um corredor uma porta semiaberta. Olhei lá dentro e não tinha ninguém. Era um quarto de dormir com uma cama de casal de respeito, ou melhor, uma cama de respeito de casal. Notei um livro em uma das mesinhas de cabeceira da cama. Voei para descobrir se era a Bíblia, o Torá, o Corão ou um que continha ensinamentos de entidades superiores que se manifestam nos terreiros. Poderia ser também “Irmãos Karamazov”, “A Elite do Atraso” ou o último do Piketty.
Cheguei perto e vi a marca de um carimbo com as palavras: “TOP SECRET”. Meu corpo gelou. Eu poderia lê-lo? Qual a penalidade por transgredir ao alerta? Obviamente, comecei a folheá-lo. Estava em português. Seu titulo era: “Recomendações ao Senhor Temer”. Em alguns minutos, identifiquei do que se tratava. Eram recomendações de algum órgão, entidade, grupo ou país para a ação de Temer no governo. Procurei encontrar a autoria, mas foi impossível.
Li trechos aleatoriamente, apesar de estar muito preocupado. Não queria que descobrissem que existia uma alma de esquerda, no palácio. Lembro-me de alguns trechos.
O Senhor será guindado a presidente por ordem nossa a nossos quadros espalhados em diversas instituições brasileiras, ditas públicas. Irá contribuir muito também a grande mídia, que nos pertence. Nunca esqueça isto. Assim como vamos colocá-lo lá, poderemos tirá-lo a qualquer instante.
Pelas informações da nossa inteligência, o Senhor é o homem talhado para a missão que estamos lhe destinando. O Senhor não tem nenhum amor pátrio e não sente nenhuma responsabilidade social. Gostamos de alertar aos nossos prepostos, para que nunca digam estar surpresos com as ordens emitidas: elas serão impatrióticas e antissociais. Nossos quadros na estrutura do seu país e a grande mídia, que irão lhe apoiar, darão explicações para seus atos de forma a confundir a população, com eufemismos e dissimulações.
Nós precisamos do Senhor para tomar as medidas que desejamos, pois outros teriam escrúpulos. O Senhor as tomará sem remorsos, segundo a análise psicológica da sua pessoa. Sabemos também que o Senhor nunca foi muito bem votado. Conseguia se eleger porque o seu partido, o PMDB, sempre elegeu muitos deputados. O Senhor não pode concorrer a cargos majoritários porque nunca irá ganhar. Então, o Senhor não precisa ser popular. Por outro lado, o Senhor sabe fazer muito bem o “toma lá, dá cá” de seus colegas fisiológicos. E o Senhor usufruirá com o poder, enquanto nos for útil.
Não tenha ideias de grandeza, porque o Senhor não é imprescindível. Existe uma lista de possíveis substitutos.
Precisamos do seu mercado para nossos produtos, por isso, nada de conteúdo local nas compras do Estado. Precisamos de seus recursos naturais, em especial do seu petróleo, portanto, deixe nossas empresas entrar em condições vantajosas. Nada da engenharia brasileira competir com a nossa em obras internacionais. Seu banco de desenvolvimento deve se concentrar em financiar a venda de grãos, minérios, proteína animal e outros produtos primários.
O segredo das ultracentrífugas brasileiras deve ser compartilhado. O Brasil deve assinar o Acordo adicional da Agência Internacional de Energia Atômica que obriga o Brasil a aceitar inspeções não programadas e de surpresa em qualquer unidade nuclear. A base de Alcântara também deve ser entregue aos Estados Unidos. O Brasil não precisa de submarino nuclear. O contrato de compra de caças suecos deve ser cancelado. A Eletrobras, o Banco do Brasil, a Caixa e, por último, a Petrobras têm que ser privatizados.”
“Outras determinações serão dadas posteriormente, à medida que se façam necessárias. A presidente Dilma será deposta em dias. Prepare-se para assumir.”
Depois desta leitura e de muita indignação, acordei deprimido e passando mal.

Recebido pelo Whatsapp

25 novembro 2017

Lula, gênio da raça

Paulo Metri – conselheiro do Clube de Engenharia e do CREA-RJ

O Brasil, pela sua Constituição, é uma República, apesar do topo da pirâmide se considerar como membros da realeza. O sistema de governo brasileiro, segundo a mesma Constituição, é presidencialista, por duas vezes ratificado pela sociedade através de plebiscitos, para desespero de congressistas que gostariam de deter o poder do país indefinidamente.
No presidencialismo, para o bem ou para o mal, muito poder é colocado nas mãos do presidente da República. Na maioria dos modelos de parlamentarismo, o presidente passa a ser uma figura meramente decorativa, sem poder. Eleições para presidente com este parlamentarismo se trata de mais uma tentativa de ludibriar a sociedade, desta vez com “eleições para mudar o presidente, que nada irá mudar”.
Dentro de um quadro hostil para candidatos compromissados com a sociedade, Lula foi eleito pela primeira vez presidente do Brasil em 2.002. Conseguiu um feito inacreditável uma vez que a sociedade brasileira não ficou politizada do dia para a noite. Principalmente a Globo, mas também os demais canais de TV, a Veja, a Isto é, o jornal Globo, o Estadão, a Folha, enfim, toda a mídia convencional brasileira continuava influenciando enormemente a nossa sociedade a favor dos interesses dos donos do capital, inclusive o internacional.
Ao abandonar o discurso raivoso de campanhas anteriores e usando a sua extraordinária capacidade de comunicação, Lula começou a atingir níveis de aprovação da sociedade preocupantes para o capital que, à época, carecia de alguma “solução brilhante”, como tinha sido Collor em 1.989. Mas o capital com sua poderosa mídia, insatisfeito, podia fazer alguma diabrura contra a sua candidatura.
Nesta altura, Lula fez um pacto com o diabo, imagino eu, se comprometendo a, se eleito, não mexer em alguns dos domínios do capital, como a mídia e os rendimentos dos “rentistas”. Ainda na minha compreensão, recebeu em troca a garantia que poderia tomar medidas nas áreas da educação, saúde e outras de grande impacto social sem receber oposição radical. Este pacto teria sido selado pela enigmática “Carta ao povo brasileiro”. Certamente, esse pacto, se existiu, facilitou muito a sua eleição. Intermináveis discussões ocorrem, neste ponto, quando os adeptos da “ética de princípios” e os da “ética de resultados” se colocam.
Os oito anos do governo Lula não compuseram o melhor governo que a população brasileira poderia receber, mas formaram um governo infinitamente melhor que todos os recentes que o país teve. Estou retirando os governos Vargas e Goulart da comparação, pois eram diferentes mundos, então. Não vou perder dígitos preciosos para listar os benefícios sociais que Lula trouxe para o povo brasileiro, pois não quero alongar este artigo. Também, as pessoas, que ainda hoje não reconhecem os benefícios do governo Lula, são aquelas que têm interesses inconfessáveis e é perda de tempo argumentar logicamente com elas.
Por outro lado, infelizmente, todos nós iremos morrer de forma inexorável. No entanto, dependendo de vários fatores, a estadia de cada um na Terra pode ter durações e graus de felicidade variados. Lula e alguns outros presidentes do Brasil prolongaram a estadia de brasileiros na face da Terra com razoável grau de felicidade. Estes presidentes aumentaram a longevidade e a qualidade de vida, basicamente, dos mais carentes. Isto acontece porque programas de inclusão social fazem a população se alimentar melhor, ter um atendimento de saúde melhor etc.
Em compensação, outros presidentes, à medida que retiram conquistas sociais já ocorridas, que significaram no passado o prolongamento e a melhoria da vida, são “encurtadores” da vida de brasileiros e “destruidores” da sua qualidade. Não tenho dúvida que Temer, dentre as várias desqualificações que possui, é um dos presidentes “encurtadores e destruidores” da vida dos brasileiros. Ele comete estes crimes à medida que, por exemplo, dificulta o acesso da população à saúde, dificulta a obtenção da aposentadoria, diminui o salário médio dos trabalhadores e aumenta a taxa de desemprego, resultando em carência alimentar da população.
Outra área de atuação brilhante de Lula foi a da política externa, graças também aos conselhos de Marco Aurélio Garcia e Celso Amorim. Com grande discernimento, entendeu rapidamente que era preciso agir de forma soberana para poder beneficiar a sociedade brasileira. Enfim, Lula é um gênio da raça porque, com toda a conspiração midiática e de grupos do capital, conseguiu ser um presidente “prolongador” da vida dos brasileiros e autor da melhoria da qualidade de vida deste povo.

27 outubro 2017

Global Power and Brazilian Nuclear Decisions

(Apresentado no INAC 2017)
 

Paulo Metri

 

ABSTRACT

 
Brazilian society declares no intention to development a nuclear artifact. This is on its Constitution. The submarine of nuclear propulsion may be used as a weapon of defense and, therefore, has a peaceful objective. Nationalism must be applied only to benefit the society. Nationalist attention has always been devoted, at various occasions, to the Brazilian nuclear sector. However, since Brazilian society has many needs and the Brazilian government always had numerous energy options, this sector has not been developed as it could be. Other successful applications of nuclear technology, besides electric generation, are not considered here. At present, the country is experiencing a moment of harassment of liberal forces. It is difficult to know if the population understands what is going on, due to the traditional media control.  This media belongs to the capital. The rise and the fall of the nationalist strand in a country follow a global tendency and also depend of actions of the international capital. In nationalist periods, more decisions with positive social impact are taken. Therefore, sovereignty is necessary to increase the benefits to society. Unfortunately, the Brazilians deceived by the companies of mass communication and corrupt political leaderships allow the country to be dominated. Even the armed forces had their projects paralyzed. The nuclear sector, as all other, suffers with the low budget and the future is difficult to predict.

 
1. INTERSECTION OF THE NUCLEAR SECTOR AND NATIONALISM

Nationalist attention has always been dedicated to the Brazilian nuclear sector at various times. However, because Brazil is a country with many needs and has so many energy options, the nuclear sector has not been completely developed, which would be beneficial for society itself. Nevertheless, what has been done represents a reasonable advance for a latedeveloping country.

The Brazilian position about nuclear issues in international forums has always been an extreme commitment to our society. The most characteristic event of the rectitude of a representative of ours occurred with Admiral Alvaro Alberto when the US government proposed that the world reserves of thorium and uranium be “internationalized”, the called Baruch Plan. In short, this plan tried to install the control of these reserves by an international agency which would suffer strong influence of the US government [1] [2] [3].
 
On this occasion, the Admiral voted against the proposal, which he called "the United States attempt to expropriate world reserves" and proposed the Principle of Specific Compensation, which meant that no trade transaction with strategic minerals should be made with currency payment, but through the provision of technology. Underdeveloped countries, usually reserve owners, would provide the desired ore and would receive technologies.
 
Admiral Álvaro Alberto was also the responsible for the purchase of three centrifuges for uranium enrichment in post-war Germany to bring them to Brazil. This operation did not result in success. However, it proves that he was conscious, in 1954, about the importance of this technology for Brazil.
 
In 1962, the creation of the Nuclear Engineering Institute (IEN), together with the construction of the Argonauta research reactor, completed in 1965 with a 93% nationalization index, represented a reaction of Brazil to the United States program "Atoms for Peace", which planned to create dependence of developing countries on nuclear technology [5] [6].
 
Taking a leap in History of a dozen years, under General Geisel's presidency, in 1975, Brazil closed a Nuclear Agreement with Germany, which was very ambitious, but was concerned about the transfer of nuclear technology to Brazil [4]. As a consequence of this transfer, for many years, Brazil is manufacturing the fuel elements for the Angra I and Angra II plants. During the construction of Angra II, technologies were absorbed and some components were manufactured at NUCLEP. Unfortunately, knowledge is being lost due to lack of continuity in the construction of the plants.
 
The peak of the demonstration of wanting the best for the Brazilian society occurred with the constitution of the Parallel Nuclear Program. The ultimate goal has always been to endow the country with the powerful defense weapon, the submarine with nuclear propulsion. It is known that no country in the world sells this submarine. Thus, Brazil is obliged to develop the necessary technologies to possess it, being the main ones, the uranium enrichment and the construction of the compact reactor. The submarine needs other technologies to be developed, but, related to nuclear energy and with a high degree of complexity, there are only these two.
 
With respect to the development of uranium enrichment, there was great success, thanks to the Navy and IPEN team, coordinated by Vice Admiral Othon Pinheiro da Silva. The ultracentrifuges developed by this team performed above the best available at the time. However, the greatest value of the team was not their technical culture, which was great, nor their inventiveness. It was, above all, their commitment to Brazilian society. All team members struggled to achieve this great conquest. 


2. MOVEMENT OF INTERNATIONAL CAPITAL
 
A new wave of liberalism in the economy emerged a few years ago and persists to these days in most countries of the world. As it happens sometimes, the interests of capital collide with the interests of society. Also, at present, there is the prevalence of the interests of international capital over the ones of regional capitals in peripheral countries. On the other hand, in relation to privatizations, the minimum state, the withdrawal of customs barriers and the free flow of capital and so on, these capitals show unity of position.
 
Macron in France, Macri in Argentina, Kuczynski in Peru, Mario Monti in Italy, Peña Nieto in Mexico, Temer in Brazil and others [18] have in common that they have been driven to power with strong support from the capital and the media. Generally speaking, the capital wants in return of its support the transfer of resources related to the social achievements in years of workers' struggles to increase the profitability of capital. Also, in peripheral countries, the foreign capital wants to receive natural resources, productive facilities and the opening of the domestic market.
 
The changes promised by these elected, stated as beneficial to society, with some variations from country to country, consist of the reform of social security and labor legislation, greater restriction in the granting of unemployment insurance, business conditions more attractive to capital owners, privatizations, reduction of State size, responsible public accounts, reduction of taxes, free market and globalization.
 
As already mentioned, capital has managed to win elections around the world, with a great support of the media, which is its instrument of power. Media channels committed to society are very few everywhere. In these circumstances, the freedom of the press has been in practice that of the capital to manipulate the information. In the battle of information, proponents of neoliberal change argue that it brings greater efficiency, not saying that this efficiency is related to the profit generation and, unfortunately, not to the social welfare obtained.
 
However, not all is lost. There are signs that the future may be different, as new alternatives emerge [18]. In Spain, the "Podemos" on the left is a hope. The "France Insubmissa" is another reason for joy. The new leader of the English Labor Party, Jeremy Corbin, beats recent leaders of the same Party. In Mexico, Lopez Obrador of the National Regeneration Movement may come to power and reverse the current anti-national oil policy. Even in the United States, right wing paradise, the candidacy of Bernie Sanders, in the Democratic primaries, brought the hope of an outcome always considered impossible.
 
But the right has the primacy in the Western world. In Brazil, seems that it has badly chosen its representative. For obvious reasons, Temer will not have the political strength to approve all "reforms", which was the task that he received. Today, it is very difficult to predict the future of Brazil and say who will win the 2018 elections, if the right or the left. Even to say how a conservative or progressive government will decide about nuclear issues, it is not easy.
 
In the political world, where there is little nexus for the common citizens, thanks to a lot of dissimulation, there is a great disinterest among them. It is even difficult to predict whether the population's complacent posture will continue or whether this population will be discussing and analyzing with exemption the situations.
 
At the moment, Brazil is experiencing the siege of neoliberal forces. Sometimes, appears that the population begins to sketch some reaction, in spite of all the media control exerted on her. There is a heavy information control that not even the military with their censors did. Today, if it was not the social networks, which seek to raise public awareness, the population would not know what is happening and, in the next election, would vote against their own interests.
 
The relations between countries and the development of each one explain, in part, the rise and fall of the nationalist dimension in some of them. It is obvious that when the country is in a sovereign phase, neoliberal decisions do not exist. Thus, in the nationalist phase, more decisions of social interest are taken. Therefore, one should seek to increase the degree of sovereignty for the enjoyment of society. In the present phase, there is extreme invasion of the colonized countries by their colonizers in order to increase the degree of domination for their usufruct. Countries with a high degree of sovereignty protect their markets, their strategic sectors of industries and services, their universities, their sources of technology and their culture.
 
We always were part of the zone of influence of the United States, but we had presidents with more concern with sovereignty, like Vargas, Goulart and Geisel. During the Lula and Dilma governments, Brazil showed some "rebellions" in the quest for a greater degree of sovereignty, such as when it joined the BRICS countries, by participating in the creation of a BRICS-linked development bank, in forming UNASUR, with the agreement to all transactions of BRICS countries be into their currencies, by buying technology of the fighter airplane and the conventional submarine, while seeking to develop the nuclear submarine, by approving the pre-salt sharing contract, by supporting local purchases, and so on. All these attitudes were not to the liking of international capital, but they were in the interest of Brazilian society. Today, Brazil's degree of sovereignty is low. It can be said that Brazil is currently a success of domination by capitals and foreign countries.
 

3. MEDIA DOMINATION


Noam Chomsky well describes the process of media domination. It is important not forget that this media belongs to capital. According to him, there are principles, which must be followed by the media to achieve the domination of public comprehension of events. This media does not report necessarily the reality. It can also create supposed facts that satisfy the interests of the dominators. The process of domination uses knowledge of neurology, applied psychology and others, for the control of the preferences and the opinions of the population by the elite.
 
Some of the principles described by Chomsky [16] are the following: (1) fake information and even some reliable information should be inserted in the midst of the entertainment programming of TV; (2) one can lie and not show facts at will as long as the version that goes to the public is feasible; (3) problems can be created for desired positions to be imposed; (4) an unpopular measure presented in parts facilitates its acceptance; (5) the time lapse between the approval by Congress of an unpopular measure and its beginning of application must be large; (6) communication with the general public should occur as if it were addressed to the mentally weak because, acting in this way, a critical reaction is not stimulated; (7) the quality of education given to the less favored social class should be as superficial as possible, so that there will be a great distance between the awareness of this class and that of the elite; and (8) the most inhuman of all, which is to make the individual believe that he alone is to blame for his own misfortune, because of his lack of intelligence, incapacity and insufficient efforts.
 
Long before Chomsky, in the first half of the last century, Edward Bernays [15], called as the "father of public relations", was already aware of the manipulation of the masses, so much that he said: "Those who manipulate this invisible mechanism of society constitute a government. In almost every act of our daily lives, be it in the sphere of politics or business, in our social conduct or our ethical thinking, we are dominated by a relatively small number of people, who understand the mental processes and social patterns of the masses. They pull the wires that control the public mind."
 
In this context of domination of societies, armed forces are replaced by efficient entertainment and communication companies. One does not disembark anymore in beaches to dominate a country. Just have a competent communication company and start to spread many misconceptions, such as: (1) Brazil can develop thanks to the massive inflow of foreign capital into the country; (2) the best index to measure a country's growth is GDP (nothing being said about the difference between economic and social growth and the HDI); (3) there is no industrial sector that requires the existence of state-owned companies; (4) in sectors with a predominance of private companies, regulatory agencies will avoid agreements that cause damage to society; (5) Brazil can have its physical security guaranteed by the United States, not needing to spend on costly military projects; (6) for more than 150 years, Brazil has not been in conflict with any of its neighbors, which corroborates the thesis that it does not need to have strong armed forces; (7) import barriers, also known as market reserves, only serve to create technological backwardness and inefficient production; (8) in order to attract foreign capital, important for our development, we should minimize taxes in general on productive activity. Obviously, if the society adheres to these thoughts, the country ceases to be sovereign.

 
4. CONCLUSIONS
 
Any analysis of the future of the nuclear sector in Brazil depends on the future of the country, that is, its economy, its political organization, its international relationships and the degree of awareness of its society. What is left of 2017 and 2018 will be a bustling time from the political point of view, which will have repercussions for some time in all areas. As it happens with any prognosis, it will also contain some degree of subjectivity.
 
Beside these facts, the positioning of the country, after January of 2019, will be a consequence of the new president and the new Congress, both elected at the end of 2018. Since capital will probably continue financing its candidates, media will stay manipulating information and people will remain understanding very few of what is going on, things will not change too much in the political world. Society needs a break through as an educational revolution, a great participation of workers in unions, a media regulation or an ethical movement in the society, which will have repercussions in next election.
 
At this point, one must stop, because even experts in prospective analysis have difficulty to estimate how Brazil will be in 2019. Obviously, decisions about the nuclear sector will be different for each one of the Brazilian futures. But, it is certain that there will be few State resources for the construction of a new nuclear power plant or even to complete Angra III.
 
Foreign companies of construction and operation of nuclear plants want to change the Constitution so that the end of the State monopoly in this sector occurs. These companies will compete with those that produce electric energy from hydropower, wind, solar, in thermals from fossil fuels etc. Certainly, foreign nuclear generation companies must have security that can generate kWh cheaper than those generated with the other sources. Other option, that does not need to modify the Constitution, is an agreement between the State owned company Eletronuclear and Chinese or Russian firms to construct and operate nuclear power plants, being Eletronuclear the main contractor.
 
Since there are, in nowadays, two great groups of military and political power in the world
[14], the United States plus OTAN in one side, and the Shanghai group in the other, a new
“Cold War” already started. In periods when there is a division of the world power, nonallied countries may gain some advantages.
 
Only one of the applications of nuclear energy is being analyzed, but it is the one that receives the largest volumes of resources. There are applications in Health, Industry, Agriculture and others, that are being successful as well. The technology for using nuclear energy in the propulsion of submarines is being developed in Brazil not at the desirable speed because there is a lack of resources as well, in total disagreement with the country's defense needs.
 
Unfortunately, a part of the investments made in the past, in order that Brazil would dominate the nuclear generation technology, was thrown away. The greatest sadness of underdeveloped countries is not the lack of resources to implement their various projects. The greatest sadness is the fact that, since resources are scarce, a part of these resources is being completely lost. To overcome this difficulty, it would be opportune to draw up a National Project, together with society, to be a guideline for the future governments. A nuclear program, as well as a defense program, must be programs that belong to the Brazilian State and not to the government in course. This means that, if the construction of a nuclear power plant is decided, for example, in a progressive government, that was followed by a conservative one, this last government had to continue the construction.
 
Due to media domination, today there are some misconceptions about Sovereignty, such as "geopolitics is a military subject" or "buying and developing weapons, even if they are only for deterrence, it means to lose money" or "foreign companies acting in our country bring the same impacts as genuinely national companies". It is missing to explain to the people that these misconceptions were implanted on them purposely.
 
It is amazing that, thanks to the large number of foreign companies established in the country, our generous law of profit remittances and the subservience of our current authorities, Brazil is far from being a stage of war, despite the weakness of its Armed Forces. In other words, the country has recently accepted all the impositions placed by international capital. In addition, Brazil is not on the border of world powers and it is not part of any valuable market route. The Pre-Salt was discovered here, but slavishly the country is delivering a substantial part of its oil, without a great return to society. In other words, we live in one of the capital dominated countries.
 
The exacerbated capitalism represents an exclusion model, but damages of this kind may be mitigated with strong regulation of the State, what is only possible if the country is sovereign. On the other hand, based on the recent experiences of the human species, in a short horizon, capitalism is the only applicable system of economic organization.
 
 
REFERENCES
 
1.      Centro de Memória do CNPq, “Álvaro Alberto – A instituição da ciência no Brasil”, Site do CNPq, http://centrodememoria.cnpq.br/alvaro-alberto.html

2.      FGV CPDOC – Centro de Pesquisa e Documentação de História, “Álvaro Alberto da Mota e Silva”, Site da FGV, http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbetebiografico/alvaro-alberto-da-mota-e-silva

3.      J. C. V. Garcia, “Álvaro Alberto: a ciência do Brasil”, Contraponto, Rio de Janeiro, Brasil (2000)

4.      FGV         CPDOC,         “Acordo          Nuclear           Brasil-Alemanha”,      Site      da        FGV, http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/FatosImagens/AcordoNuclear

5.      A. M. R. de Andrade, “A opção nuclear: 50 anos rumo à autonomia”, CNEN e MAST/MCT, Rio de Janeiro, Brasil (2006)

6.      V. Campelo, “IEN 50 anos: tecnologia nuclear para o Brasil”, CNEN/MCTI, Rio de Janeiro, Brasil (2012)

7.      D. Motta, “Rex Nazaré: uma vida dedicada à energia nuclear”, Faperj, Rio de Janeiro, Brasil (2014)

8.      G. Camargo, “O fogo dos deuses: uma história da energia nuclear”, Contraponto, Rio de Janeiro, Brasil (2006)

9.      A. Rocha Filho e J. C. V. Garcia, “Renato Archer: energia atômica, soberania e desenvolvimento”, Contraponto, Rio de Janeiro, Brasil (2006)

10.  A. D. Vianna, “Competitividade e a indústria brasileira: por que o Brasil não é competitivo?”, Jaguatirica Digital, Rio de Janeiro, Brasil (2013)

11.  A. A. F. Vidigal e outros, “Amazônia azul: o mar que nos pertence”, Record, São Paulo, Brasil (2006)

12.  J. L. Fiori, “O poder global e a nova geopolítica das nações”, Boitempo, São Paulo, Brasil (2007)

13.  J. L. Fiori, “História, estratégia e desenvolvimento: para uma geopolítica do capitalismo”, Boitempo, Rio de Janeiro, Brasil (2014)

14.  R. Padula, “Geopolítica e Geoeconomia do Futuro: A China e o Grupo de Shangai x
        EUA/OTAN”,         Site         do          Instituto         de         Economia         da         UFRJ,
http://www.ie.ufrj.br/index.php/pos-graduacao/pepi/eventos/seminarios-sobre-a-guerra-6

15.  F.   Campos,          “Edward         Louis   Bernays”,        Site      RP       em       Perspectiva, http://perspectivasrp.blogspot.com.br/2012/05/edward-louis-bernays-freud.html

16.  N. Chomsky,       “As      10        Estratégias      de        Manipulação   Midiática”,      Site      GGN, http://jornalggn.com.br/noticia/as-10-estrategias-de-manipulacao-midiatica

17.  P. Metri, “Setor nuclear, nacionalismo, soberania, mídia e dominação”, Site Pátria Latina, http://www.patrialatina.com.br/setor-nuclear-nacionalismo-soberania-midia-edominacao/

18.  L. A. G. de Souza, “Uma direita funcional aos interesses do capital transnacional”, Site Carta Maior, http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/Uma-direita-funcionalaos-interesses-do-capital-transnacional/4/38292

19.  J. E. da Veiga, “Ambiguidades sobre os rumos da geopolítica na crônica do capitalismo”, site do Valor Econômico, http://www.valor.com.br/cultura/3889696/ambiguidades-sobreos-rumos-da-geopolitica-na-cronica-do-capitalismo

01 setembro 2017

Morte barata

Paulo Metri – conselheiro do Clube de Engenharia e do CREA-RJ.

Conheci uma senhora, nos anos 60 do século passado, quando eu tinha vinte e poucos anos, e ela devia ter o dobro da minha idade. Nesta época, não existiam, pelo menos muito difundidos, os planos de saúde. Passaram uns vinte anos e ela continuou sem plano, o que foi um erro, principalmente dos seus dois filhos. Infelizmente, ela teve um tumor no cérebro e seus filhos foram obrigados a pagar, com grande esforço financeiro, a operação, consultas e exames.
Antes da operação, ainda lúcida, ela chegou a pedir ao médico para tirar-lhe a vida, o que foi obviamente negado. Ela argumentava:
- Irei dar muito prejuízo para meus filhos. Eu só quero uma “morte barata”!
Nos dias atuais, vemos a recriação dos fatores que irão fazer muitos de nós solicitarem uma “morte barata”. Uma informação a conferir, mas bem plausível para os tempos atuais, é que as empresas de plano de saúde não estão mais oferecendo planos nos quais elas são proibidas de rejeitar a continuidade do mesmo a qualquer época, a menos que o beneficiário esteja deixando de pagar regularmente.
Provavelmente ocorrerá do beneficiário de um plano ser “dispensado” a partir do momento em que atingir a idade crítica a partir da qual, na média, os gastos de saúde ultrapassarão os pagamentos mensais do plano. Ou seja, quando o beneficiário irá mais precisar do plano, este será revogado. A ideia do seguro coletivo, nascida na Inglaterra no século XIX, está sendo hoje refutada, por empresas que não irão mais trabalhar dentro dos princípios éticos racionais da seguridade da assistência médica e hospitalar.
 Através de cálculo atuarial, os ideólogos do sistema de seguro coletivo imaginavam que o fundo coletivo criado por um grupo com as contribuições de seus componentes durante anos iria cobrir os gastos com saúde do grupo e, ainda, restaria algum lucro. Hoje, a cada mês, o fundo deve dar lucro e, quando começar a dar prejuízo, porque as pessoas envelheceram, o seguro é extinto.
São inúmeras e profundas as medidas antissociais que o capital está providenciando, neste instante, no Brasil, país onde ele está livre para causar o dano que quiser, pois a capacidade de absorção de sofrimentos do nosso povo tem se mostrado imensa. Este fato antinatural deve levar sociólogos e antropólogos à busca da compreensão da aparente irracionalidade.
Nas minhas divagações à procura de nexo, sem a formação ideal, encontro um arremedo de causa. Temos no nosso DNA, com orgulho, grande participação da etnia negra. Assim, nossos antepassados sobreviveram aos mais terríveis sofrimentos impostos pelos colonizadores europeus. Os vivos de hoje são descendentes daqueles que se calaram com muita dor.
Entretanto, uma conscientização precisa ocorrer, pois os opressores atuais não irão abrir mão de suas regalias injustas facilmente. Não há democracia em um país em que uma pequena casta, os inquilinos da Casa Grande, concentra tantos poderes e propriedades. É preciso que a sociedade mostre sua indignação, de forma pacífica, mas contundente e determinada.
Existe outro problema. A nossa mídia convencional, apesar de ter perdido influência nos últimos tempos, ainda é a mais importante fonte de informação da população. Na verdade, ela é um instrumento de dominação do capital, à medida que deturpa fatos, informa acontecimentos irrelevantes, para tergiversar, e não informa o principal. Cabe à população consciente continuar na árdua e nobre tarefa de informar seus irmãos, muitos dos quais nem sabem que estão mal informados.
Para encerrar o conjunto de desgraças brasileiras atuais, os próprios Executivo, Congresso e Judiciário brasileiros são inimigos do seu povo. Que reflexão explica esta situação disparatada? A questão é gravíssima, pois temos um presidente, ministros, juízes, deputados e senadores que tratam o povo inacreditavelmente com escárnio. Ouso dizer, em comparação macabra, que o brasileiro sofre hoje, esquecendo as especificidades das épocas, tanto quanto no período da ditadura de 1964.