24 setembro 2016

Entrevista com um coxinha

Paulo Metri – conselheiro do Clube de Engenharia

Um jovem recém-eleito com seu grupo para o Diretório Acadêmico de uma escola de Engenharia ficou encarregado da área de comunicação. Uma de suas primeiras atividades foi fazer uma entrevista com determinado professor para o jornal do Diretório, previamente negociada com a direção da escola. Sem existir determinação expressa, a direção deixou clara sua preferência por uma entrevista que se restringisse a questões curriculares e específicas da cadeira dele. O professor era reconhecido por todos como competente e, também, muito conservador. O jovem, querendo se desvencilhar de uma entrevista anódina, fez a primeira pergunta:
- Por que há tanta pobreza no nosso país?
O professor, muito bem estruturado, responde:
- É resultado da ação de vários fatores, como, por exemplo, o descaso do governo e das famílias, a falta de investimentos no país, graças à falta de estímulo do governo aos empresários. O governo cobra alta taxa de impostos, cria uma burocracia generalizada e não dá incentivo ao empreendedorismo.
- Então, vamos analisar por partes. Em que consiste o descaso do governo que o senhor se refere?
- O governo deveria criar igualdade de oportunidades para todos os cidadãos poderem enfrentar a vida. A partir deste começo com igualdade, alguns iriam se distinguir porque aceitam correr riscos, trabalham com bastante afinco e são responsáveis, obtendo maior retorno do próprio trabalho.
- Então, a igualdade de oportunidades se relaciona com existir escolas, hospitais e demais atendimentos sociais principalmente para os mais pobres. Mas os cortes do atual governo vão ser exatamente nestas áreas. Este governo seria contra a igualdade de oportunidades?
- O governo Temer encontrou o país desgovernado. Tem que fazer cortes para poder honrar os compromissos assumidos.
- O senhor fala de compromissos financeiros. Os compromissos sociais não contam? São menos importantes?
- Temos que honrar as nossas dívidas. Existe a Lei de Responsabilidade Fiscal.
- E com relação às dívidas sociais, podemos ser irresponsáveis? Porque os rentistas são politicamente fortes e o povo, não? Enfim, por que não se diminui a taxa de juros, pelo menos não irão existir tantos compromissos futuros?
- A taxa de juros é fixada para debelar a inflação existente. Às vezes, não se pode diminui-la.
- Existe tese contrária a esta sua afirmação, mas temos outros temas para falar. Por exemplo, a política de cotas nas universidades públicas não visa a melhoria da igualdade de oportunidades?
- Sim. Mas neste caso, consegue-se a melhoria à custa da piora do ensino. A média das notas dos alunos diminui, provando que os cotistas são alunos fracos.
- Esta sua afirmação é contestada por uma pesquisa da UERJ. Nela, é provado que, no cômputo geral, os cotistas são bons alunos. O que o Senhor acha do fato de cerca de 42 milhões de pessoas terem ascendido a uma classe de renda maior no governo Lula?
- Quem disse isto? Porque este número é muito alto.
- Quem disse foi o IBGE. Cerca de 32 milhões saíram da miséria e entraram na categoria de pobres e cerca de dez milhões migraram da pobreza para a classe média. É alto, sim! Trata-se de uma Argentina!
- Entretanto, graças ao governo Dilma, todos já devem ter retornado às suas condições iniciais.
- O senhor acredita que um país pode ter desenvolvimento social em consequência de investimentos estrangeiros?
- Claro. Com novos investimentos no país, novos postos de trabalho serão gerados, além de a arrecadação aumentar, o que proporciona mais recursos para a área social.
- Contudo, pelo comportamento histórico de empresas estrangeiras, constata-se que os seus investimentos tendem a empregar o mínimo de nacionais, comprar o mínimo de materiais, máquinas e equipamentos no país, não desenvolver tecnologia e realizar projetos de Engenharia, aqui, no Brasil. Além de praticar o superfaturamento de importações e subfaturamento de exportações, e a camuflagem da remessa de lucros através de assistências técnicas pagas à matriz no exterior.
- Mas, aumenta o pagamento de impostos no país.
- Aumenta. Entretanto, vamos tomar como exemplo o setor do petróleo. O Brasil é um dos países do mundo que menos taxa a produção de petróleo, em torno de 45% do valor da produção, enquanto existem países com taxações acima de 80% e a média mundial está em torno de 65%. Outra pergunta: por que tanto ódio ao PT?
- O PT roubou! Você acha isso pouco?
- Não é pouco! Mas, o partido, como um todo, roubou? Ou foram alguns de seus integrantes? Assim como integrantes de outros partidos também roubaram.
- Mas, foram integrantes da direção do PT!
- Nem todos os integrantes da sua direção. E os partidos, que hoje estão no poder, são compostos de vestais?
- Têm ladrões neles também. Mas vão ser todos pegos, sem exceção.
Neste ponto, o rapaz fica pensativo e, após alguns segundos, volta a falar:
- Confesso ao senhor que esta entrevista está saindo toda errada, pois eu não deveria discutir com o senhor. Um jornalista deve fazer perguntas que obrigam o entrevistado a se revelar. Nunca partir para uma discussão. Desculpe-me.
- Não, pode colocar os seus argumentos. Eu gosto de ouvir argumentos contrários ao meu pensamento, desde que sejam lógicos e não agressivos. Você nem me chamou de “coxinha”!
- Não sei como vou resolver a questão da entrevista, mas quero colocar mais um ponto. Acho que o senhor é um tanto esperançoso ao pensar que os ladrões de outros partidos vão ser presos? O senhor acha que o Aécio vai ser pelo menos investigado? Ele foi citado em seis delações e nada é feito. Não estão faltando representantes da Justiça dispostos a reconhecer os erros de integrantes do PSDB?
- Eu concordo com você. Não se pode perseguir só um partido! Mas, você acha que existe um complô da Polícia Federal, Procuradoria Geral e Justiça, cujo intuito é só destruir o PT? A concentração no PT não será porque identificaram neste partido muitos corruptos?
- O senhor esqueceu a mídia como integrante do complô. Este complô existe. Por outro lado, tais integrantes não estariam deixando os bandidos de outros partidos para depois que passar no Congresso uma lei que dará anistia para quem fez roubos no passado? O argumento para tal perdão será que “se continuar a caça às bruxas, o mundo político irá se desestabilizar e, sem a política, nada avança na sociedade”.
- O maior fator de desestabilização da política é deixar o ex-presidente Lula impune e solto.
- Não me diga que o senhor acredita que Lula é corrupto! Se ele tivesse sido corrupto, teria sido burro também porque, com o roubo, ele poderia ter um patrimônio muito maior do que o que tem hoje.
- Ele é daqueles que é impossível encontrar fluxo de grana para seu patrimônio, mas ele tem tudo em nome de terceiros. Além disso, deixou outros roubarem.
- Agora, o senhor extrapolou. Virou estação repetidora da Globo. Os acusadores de Lula deviam ter mais respeito por ele, o cidadão que prolongou a vida de milhões. O senhor é uma daquelas pessoas que teve oportunidades na vida, neste mundo sem igualdade de oportunidades. Está certo que o senhor teve o mérito de aproveitar o “cavalo encilhado que passou na sua frente”.
Neste ponto, o universitário ficou pensativo e, depois de algum tempo, retornou:
- Posso lhe pedir que faça um exercício de abstração comigo?
- Bem, esta entrevista está sendo tão inusitada! E, por que não faria?
- Será melhor se o senhor fechar o olho. Imagine a si próprio como uma criança. O senhor é preto. Sua família consiste do senhor, seus irmãos e sua mãe. Vocês moram em um barraco na encosta do morro. Uma vala negra mal cheirosa passa ao lado do barraco. A figura feminina que lhe dá comida passa o dia longe e vocês ficam em casa com a filha da vizinha que tem 13 anos tomando conta. Você tem sempre fome. A comida quando chega não esgota a fome. Dois de seus irmãos maiores lhe batem e roubam a comida que a mãe de vocês deixa para todos. Na sua cabeça infantil, você quer entender a razão de tudo isso. Você está cansado de tanto sofrer, mas não sabe se expressar. A sua feição é de dor. Você nunca sorri. A partir de determinado momento, sua mãe começa a trazer para casa mais comida. Ela própria está sorrindo, coisa que raramente você via. Depois uns homens trazem um armário grande que tem frio dentro. Sua mãe é a própria expressão da alegria. Ela já pensa em arrumar os dentes dela. Só é estranho porque apareceu um homem dizendo que era meu pai, mas minha mãe o botou para correr.
Abrindo os olhos, o professor diz:
- Sim, já entendi. Mas, aonde você quer chegar?
- Quero chegar ao ponto que ninguém ouve depoimentos como estes. Podem ser 32 milhões de depoimentos deste tipo. Mas, os potenciais depoentes não sabem se expressar e, além disso, são politicamente fracos, o que não traz ninguém para ouvi-los. Por outro lado, os meios de comunicação endeusam o carrasco que ceifa o emprego de milhares de brasileiros em nome de uma moralidade seletiva, em que a lei só é aplicada para os inimigos, enquanto para os amigos, há um prestimoso esquecimento. E a verdade dura de ser ouvida pelos representantes da nossa oligarquia e do capital externo é que o responsável por essa melhoria das condições de vida da população pobre é o presidente Lula. Com esta abstração, busco comunicar o possível depoimento de um antigo “com fome”, se ele conseguisse falar.
- Mas, você é contra a apuração da corrupção?
- Que se apure a corrupção onde quer que ela ocorra. Mas, que não se enxovalhe um homem de bem e com sensibilidade humana, como tentaram fazer com Getúlio Vargas.
A entrevista acabou. Ambos agradeceram a sinceridade do outro e o rapaz concluiu:
- Além de tudo, o senhor é muito educado. Não me chamou de “petralha” nenhuma vez.

17 setembro 2016

Dominação

Paulo Metri – conselheiro do Clube de Engenharia

Ela explica diversas ações de seres e grupos humanos, sociedades e países, visando, muitas vezes, o acumulo de riqueza e poder. O interesse, no momento, é pela dominação de sociedades e países. Para dominar, falsifica-se a verdade, esconde-se a informação, manipula-se emocionalmente o outro ser e muito mais. Pode-se até incluir a imposição física da vontade. A dominação necessita, por um lado, a existência de um ser mal formado, capaz de induzir sofrimento a seu semelhante sem o mínimo constrangimento, e do outro, um ser frágil, incapaz de cuidar de si próprio, despreparado para a vida agressiva existente.
O sistema de competição entre humanos é indutor da dominação. Quem nasce com a capacidade de sobressair na competição da vida, se acha no direito de dominar e explorar quem não tem a mesma capacidade, o que unicamente demonstra o estágio de atraso da humanidade. Este raciocínio foi utilizado, durante séculos, para aliviar a culpa de quem apoiava a escravidão. Não há perdão para quem domina o menos preparado para a “competição” para explorá-lo.
Argumentos são criados no liberalismo para justificar a exploração, como: “deve haver igualdade inicial de oportunidades e, depois, que vença o mais esforçado, o mais apto”, quando nunca há igualdade de oportunidades, exatamente porque os dominadores não querem que ela exista. Basta ver a oposição ao sistema de cotas. Neste ponto, o liberal coloca difusamente a culpa no governo, porque “ele não garante a igualdade”. Chega a ser agressiva a afirmação dos liberais que “os pobres estão nesta condição porque são preguiçosos”. Trata-se de colocar a culpa do crime na própria vítima.
Os dominadores são mestres na sua arte. Políticos de direita são dominadores natos e, como tal, conseguem, com auxilio da mídia, colocar o pobre, prova concreta do sistema injusto de repartição da renda e riqueza, para votar contra seus próprios interesses e a favor do interesse dos seus abastados dominadores. O papel da mídia no Brasil é abominável. Aqui, nunca se conseguirá construir uma sociedade justa com esta mídia de direita, agente do capital internacional, que não informa corretamente, pois não informa todos os ângulos de uma notícia e, com isso, não ajuda a conscientizar politicamente a população.
A mídia brasileira doutrina, uma vez que repete “suas verdades” à exaustão para torná-las verdadeiras. Muitas pessoas aceitam a doutrinação midiática e se transformam em estações repetidoras das inverdades, inclusive sem a busca de compensações materiais. Esta mídia possui seu dogma máximo: “não se pode tolher a liberdade de expressão”, significando que “não se pode ter visões diferentes da dela”. Assim, a “liberdade de expressão” para ela consiste em ter a liberdade de manipular sem contestação.
Dilma sofreu um impeachment por fazer atos que governantes anteriores fizeram e os posteriores continuarão a fazer. Mas a maioria da população, dominada que é, acredita que só ela cometeu abomináveis crimes, se bem que nem 1% da população sabe dizer o que são “pedaladas fiscais”. Ela sofreu um golpe bem arquitetado pela mídia, por políticos bandidos, que se elegem graças à manipulação eleitoral, por um judiciário compactuado com poderosos e pelo capital internacional, que tem interesses de espoliação, com o beneplácito de países estrangeiros e suas agências de inteligência. A direita estava acuada, há anos, devido às derrotas eleitorais sucessivas, apesar de toda manipulação eleitoral que sempre buscou. Contudo, com o complô descrito, os entes citados estão detendo o poder e buscam detê-lo por longo prazo.
Depois que afanaram o poder, que tinha sido conquistado por Dilma com 54 milhões de votos, e como era de se esperar de quem não tem respaldo popular, os golpistas agora são obrigados a pagar os custos do golpe, ou seja, os compromissos assumidos com os apoiadores. Assim, Temer deve a seus patrocinadores a entrega de muitas das nossas riquezas e um Brasil pronto para ser explorado. Neste quadro, causam-me nojo os asseclas nacionais, que prejudicam seu próprio povo e se contentam com as migalhas deixadas pelo capital internacional. As forças antipovo iniciam, neste momento, um processo de dominação, que esperam que seja profundo e continuado. Mas o nacionalismo pode atrapalhar este objetivo e interromper a pilhagem. O vírus do nacionalismo é inoculado em cada brasileiro ao nascer e se torna ativo quando brota nos corações a constatação de que está sendo dominado e explorado.
Temer quer mostrar competência na entrega de concessões, de privatizações, de ativos das estatais etc. Por isso, age rapidamente na dilapidação da pátria enquanto o brasileiro não acorda. O butim começou e o alvoroço entre os comensais é enorme. Engalfinham-se à mesa, todos querendo uma fatia maior do Brasil. Cada barril de petróleo de Carcará foi vendido à estatal norueguesa de petróleo, Statoil, pelo preço de uma garrafa de água mineral. Busca-se desestruturar tudo, pois em um país desestruturado fica mais fácil a usurpação. Nem Fernando Henrique, liberal e entreguista confesso, conseguiu desestruturar tanto em oito anos quanto Temer mostra que irá fazer em dois anos. A maldade extrema deste governo, se não for barrada, será manipulada por marqueteiros e a mídia, e o brasileiro não entenderá a desgraça que lhe impuseram.
Com este grau de intenções entreguistas, o brasileiro, se não se mexer, será um ser inferior no contexto mundial. A grande pergunta é como se contrapor a esta situação. Os movimentos sociais devem ficar em constante mobilização enquanto os golpistas estiverem no poder, com manifestações a favor das eleições diretas já para presidente, contra toda e qualquer entrega de patrimônio e de diminuição dos benefícios sociais. Não se deve dar trégua ao usurpador e à sua gangue. Toda e qualquer brecha jurídica que dê possibilidade de colocação de processos judiciais, visando a correção dos desatinos em curso, devem ser impetrados. Por exemplo, sabe-se que o argumento do preço vil seria possível de ser sustentado para se contrapor à venda de parte de Carcará para a Statoil.
Seria oportuno alertar ao capital estrangeiro que, se quiser arrematar um patrimônio nacional por preço de banana, não o faça, mesmo que o atual governo diga que a transação é juridicamente perfeita. À medida que a normalidade retornar ao país, depois que Temer sair do poder, todas as negociatas, nas quais bens foram arrematados fora do interesse social, serão revistas. Este é o problema quando se negocia com governantes ilegítimos.
Os homens e mulheres de bem, não importando o posicionamento político, devem se unir para desbancar o intruso, porque o que está em jogo é nada menos que o futuro da nação Brasil. Não se assuste se você não gosta de bandeira vermelha nas manifestações. Leve a sua de qualquer cor, desde que você seja um “ser de bem”. Temos que reconhecer que os donos das bandeiras vermelhas foram os primeiros que identificaram o golpe dos “maus caráteres”.
Tantos heróis nacionais lutaram para permitir ao Brasil um lugar no conjunto de nações independentes, para um impostor o colocar como colônia de país estrangeiro, quintal onde sua população é humilhada. Agora, todos os brasileiros vão, não só tirar os sapatos nos aeroportos do mundo, mas também ficar nus para inspeções. É isto que fazem com povos inferiores de colônias. Não consigo acabar este artigo porque as maldades deste sistema opressor são tantas e tão frequentes que é difícil esquecer a última edição delas.
Não gosto de fazer citações religiosas até porque são oportunistas, mas o fato de Lula estar muito acima dos homens que hoje o julgam lembra Jesus Cristo sendo julgado pelo bando de exploradores de então. Jesus é cultuado 2.000 anos depois da sua morte. Dos seus algozes, só é lembrado o anti-herói Judas, que serve para ser malhado e queimado em todo sábado de aleluia. Pena que Temer não deverá viver mais muitos anos porque ele descobriria que foi eliminado da Historia do Brasil, enquanto o não culpado, mas convictamente condenado, Lula, será considerado o melhor presidente da Historia do nosso país.  
Uma última mensagem é dedicada aos militares brasileiros. Sempre os tratei com o merecido respeito por serem os guardiões das armas, posição que requer o máximo equilíbrio. Já escrevi que é sábio o Artigo 142 do atual texto constitucional, que subordina algumas das ações dos militares, especificamente as de garantia da lei e da ordem, à iniciativa dos poderes constitucionais. Devido a este texto, o julgamento se a lei e a ordem estão sendo transgredidas foi retirado dos próprios militares.
Em 1964, sem analisar os diversos acontecimentos de então, afirmo que os militares foram motivados também pela atração que a detenção do poder tem. O artigo constitucional citado coíbe a iniciativa das Forças Armadas de usurparem o poder. No entanto, o evento Temer está a nos mostrar que o texto constitucional ainda está incompleto. Quando o titular do Executivo e a maioria dos componentes do Legislativo querem deixar que estrangeiros dilapidem o país e o nosso povo seja massacrado com leis de exclusão social, as Forças Armadas devem permanecer de braços cruzados?
Vou dar um exemplo para transmitir o que estou querendo dizer. Suponha-se que todos os grandes campos de petróleo do pré-sal sejam vendidos de forma idêntica como ocorreu com a “doação” de Carcará à Statoil. Para que teria servido o esforço imenso da Marinha brasileira de construir um submarino nuclear? Teria sido para a nossa Marinha proteger a ida dos navios estrangeiros abarrotados do nosso petróleo para mover as economias de países estrangeiros deixando aqui só os royalties? Certamente, a arrecadação deste tributo não é a melhor e nem a única forma de se usufruir com o que esta riqueza proporciona.
Teria que haver uma brecha constitucional para as Forças Armadas, sem tomarem o poder, passarem a ser também as guardiãs dos aspectos positivos do nacionalismo, até para elas se contraporem ao “entreguismo” escrachado da mídia existente. O representante delas poderia ter que ser ouvido, com poder de veto, em qualquer ação que representasse a desnacionalização ou algum impacto na soberania nacional.

29 agosto 2016

Sobre a publicação "Reunião na CIA em janeiro de 2015"

Caros Leitores

Muitos dos Senhores e das Senhoras perguntaram-me se a reunião do artigo mencionado ocorreu realmente. Eu respondo: "Que eu saiba não! Não é do meu conhecimento que uma reunião tal qual esta tenha acontecido!"

No entanto, muitos dos Senhores e das Senhoras, apesar de terem achado a história inusitada, não a acharam totalmente impossível, ou seja, a consideraram como uma hipótese plausível. Tanto que me perguntaram se ela era verídica.

Assim, meu intento foi conseguido, ou seja, consegui alertá-los para que outros países, aliados a forças políticas nacionais, podem ter o interesse de dominar o poder no Brasil para usufruírem das nossas riquezas.

Paulo Metri

28 agosto 2016

Reunião na CIA em janeiro de 2015

Paulo Metri – conselheiro do Clube de Engenharia

Em uma sala de reuniões ampla, com cortinas fechadas em um de seus lados, vê-se no centro da sala, uma mesa retangular em torno da qual estão umas vinte pessoas acomodadas em cadeiras confortáveis. Cada pessoa tem à sua frente um mesmo dossiê. O cidadão da cabeceira começa a falar.
- Não serão feitas apresentações e não precisam se identificar ao falar. Todos sabem do que iremos tratar. Por favor, comece.
Esta última frase é dita enquanto olha para o cidadão ao seu lado. Este toma a palavra.
- Hoje, o Brasil não é somente um mercado para o consumo dos bens e serviços das nossas empresas, além de um grande fornecedor de grãos e minérios de baixo valor no mercado internacional. Com a descoberta por parte deles da enorme jazida do Pré-Sal, mais as novas províncias petrolíferas, que ainda irão ser descobertas, na área que os nacionalistas brasileiros chamam de território marítimo brasileiro, que vai além do seu mar territorial, o Brasil poderá se tornar o maior exportador mundial de petróleo, acima da Arábia Saudita e da Venezuela.
- Os nativos sabem disso?
- Não. A grande massa não sabe de nada. Pouquíssimos brasileiros nacionalistas sabem. Alguns dos nossos aliados no país sabem da possível extensão das províncias petrolíferas que o país possui, porque os informamos. Mas só demos estas informações aos confiáveis.
Neste ponto, o coordenador interrompe a apresentação para dizer:
- Seria melhor se as perguntas fossem anotadas e feitas no final. Continue, por favor.
- Creio que todos aqui sabem que o petróleo ainda será vital para as economias mundiais por no mínimo uns 50 anos, os desenvolvimentos tecnológicos para fornecimento de calor e movimento para as sociedades não encontrarão competidores em custo com os derivados de petróleo, a menos que restrições ambientais sejam impostas. Sumariamente, o petróleo continuará sendo um insumo essencial para as economias mundiais. Além disso, o petróleo do Brasil terá papel primordial no futuro do mercado internacional de petróleo, porque no resto do globo só ocorrerão descobertas de petróleo caro e, quando for de petróleo acessível, elas serão em regiões conflituosas.
O coordenador da reunião agradece a exposição do último interlocutor e passa a palavra a outro presente, dizendo:
- Assim, chegamos ao objetivo principal da nossa reunião. Tenha a palavra.
- Ocorreu recentemente, no final de 2014, a eleição para presidente do Brasil e, apesar de todos os esforços por nós despendidos, que não foram poucos, a presidente Dilma foi reeleita. Não vou fazer uma análise profunda do que ocorreu, para não roubar tempo do que é principal para este reunião. Mas, faço questão de frisar, até porque será útil para qualquer ação futura nossa, que existe no Brasil hoje um fator que nos desestabiliza. Trata-se do ex-presidente Lula. Ele é um fenômeno na capacidade de comunicação com as massas e, hoje, é muito mais perigoso que no passado. Nós erramos em 2002, quando dissemos que não importaria, se ele ganhasse a Presidência naquele ano. Não imaginávamos que o Lula de 2002 evoluiria para um político que valoriza o nacionalismo. Possivelmente, o contato com lideres da China, Rússia, Índia e de outros países, a interferência do seu chanceler Celso Amorim e o entendimento da riqueza que representa o Pré-Sal o levaram a ser mais consciente da questão geopolítica.
- Encaminhe a nossa proposta de reversão desta perda eleitoral. É preciso deixar claro que para nós é inconcebível o Pré-Sal não ficar aberto a nossas empresas.
- Obviamente, temos que recuperar o poder para as nossas mãos. Um golpe através dos militares não é mais viável porque, primeiro, eles saíram muito marcados do período recente em que estiveram no poder, pois a população guarda lembrança de torturas e assassinatos de lideranças neste período e, em segundo lugar, não sabemos ao certo como pensa, atualmente, o militar brasileiro. Temos a nosso dispor para ajudar em qualquer projeto que decidirmos a mídia comercial local, que é nossa, o empresariado brasileiro, com raríssimas exceções, a grande maioria dos políticos do país, que são sem escrúpulos e corruptíveis. Temos também parcela do judiciário local, que é uma casta complexa em que residem egos avantajados. Temos uma arma secreta que é o treinamento de pessoal da Justiça e de ocupantes do Ministério da Justiça aqui, conosco. O mote para nossas ações a ser transmitido para todos os brasileiros será a luta contra a corrupção. A verdade é que a corrupção vem acontecendo no Brasil há anos. Por exemplo, somos conhecedores da corrupção dentro da Petrobras desde o governo de Fernando Henrique Cardoso, mas, se tivermos que entregar a nossos aliados no Brasil, divulgaremos só os fatos dos períodos Lula e Dilma. Aliás, um ponto que precisa ser providenciado urgentemente é quebrar esta empresa, por tudo que ela representa. Ela é o próprio “vírus” nacionalista. Não podemos deixar no Brasil uma concorrente das nossas empresas querendo roubar o Pré-Sal de nós. O pior que pode nos acontecer é nosso plano ser identificado como contrário aos interesses brasileiros. Não se pode deixar o sentimento nacionalista brotar. Por isso, é recomendável não se aliar a ninguém que tenha algum compromisso nacionalista por mínimo que seja, a menos de torcer pela seleção de futebol do Brasil. Devemos reconhecer que o período neoliberal globalizante, cujo auge foi durante o governo de Fernando Henrique, alijou quase por completo qualquer sentimento nacionalista. Trabalhamos bem, então. A partir daí, o nacionalismo foi vinculado ao atraso, ao passado distante e ao autoritarismo. Depois desta época, candidatos têm procurado reabilitar as teses nacionalistas, mas têm sido massacrados nas eleições. Naquela época, o brasileiro “foi conquistado”, em grande parte graças à nossa mídia “brasileira”, que nos ajuda muito.
- Acabou, Greg? Porque creio que chegou a hora de falarmos dos suportes financeiros para as ações que desenvolveremos. Antes, é preciso deixar claro que todas as ações de inteligência e o suporte das embaixadas serão dados sem custo algum. Mesmo o custo para corromper será rateado entre as nossas empresas beneficiadas e o nosso governo. Falará, agora, nosso especialista em compor estruturas de financiamento de projetos.
- Obrigado. Representantes de todas as grandes empresas com interesses econômicos no Brasil foram chamadas. Trata-se de investir neste projeto, agora, para podermos usufruir principalmente de recursos minerais a preços baixos por horizonte confortável, alem de usufruir com a venda de nossos produtos no mercado brasileiro. Obviamente, não há certeza absoluta do sucesso do projeto, mas se trabalharmos de forma inteligente sem nos atrapalharmos, a grande probabilidade é que, logo, logo, fecharemos contratos de 30 a 40 anos que serão usados para garantir o processo de dominação. A qualquer época, eles serão acenados como contratos juridicamente perfeitos que precisam ser honrados. As petrolíferas, por serem grandes beneficiárias, serão as que contribuirão com maiores parcelas. Não vamos entrar em detalhes agora. Mas este material está à disposição das empresas. A boa notícia é que os deputados e senadores brasileiros eleitos junto com a presidente Dilma, na sua maioria, são nossos e não foram baratos para nós. Inclusive esta “compra” já foi feita e os senhores não precisam mais contribuir. A partir de agora, sabemos que, para cada projeto específico, eles serão favoráveis, bastando acertar algum valor adicional. O grande projeto de retirada do poder das mãos de Dilma e entrega a pessoa de nossa confiança ainda está sendo planejado. Tudo leva a crer que será uma obra intrincada envolvendo o Judiciário, Ministérios do governo, a mídia comercial, políticos das duas Casas do Congresso do Brasil e movimentos sociais financiados por nós. Contudo, a mídia terá o papel principal, pois irá gerar a novela da deposição da presidente, consistente e compreensível pelo grande público.
- Muito bem. Acho que chegamos ao fim da reunião. Comunicaremos sempre fatos relevantes. Quaisquer informações que tenham, por favor, nos passem. Este processo será um pouco demorado. Leiam os jornais e tudo que inocentemente acontecer podem ter certeza que foi providenciado.

18 agosto 2016

Temer explica Getúlio

(Veiculado pelo Viomundo a partir de 18/08/16)

Paulo Metri – conselheiro do Clube de Engenharia

Nos dias presentes, tem invadido minha consciência a sentença macabra: “nada é tão ruim que não possa piorar!” Esta frase expressa exatamente minha desesperança com o governo Temer, pois, a cada dia, surge uma nova má notícia, muitas vezes pior que as anteriores. Seu governo é muito ruim sobre vários pontos de vista, sendo o principal, o social. Representa a implantação no Brasil de uma sociedade agressiva em que se busca roubar dos menos conscientes, mais vulneráveis e menos protegidos, dinheiro, horas de trabalho, condições de subsistência, enfim, a vida. Acabaram-se os pruridos. Engana-se, descaradamente, aflige-se o outro sadicamente, tira-se o pão alheio sem o menor constrangimento, rouba-se atendimento médico e escola, tudo isto dos mais carentes e mais impossibilitados politicamente de reagirem. Só falta darem a explicação típica de quem não tem o mínimo sentimento, ao rotulá-los de “perdedores”, pois culpam os próprios sofredores pelo que a eles é imposto. Na verdade, eles são feitos perdedores.
Tem um único ponto em que sou obrigado a reconhecer que Temer me ajudou. Apesar de ter 70 anos, só agora me conscientizo o que é um governante mau, realmente muito malvado. Um verdadeiro usurpador, violento, insensível, desmedido, parcial e, por ai, vai. Compare FHC com Temer. Ambos neoliberais, privatistas, à busca do Estado mínimo. Mas, não me recordo de FHC ter composto com torturadores e assassinos. A usurpação social em FHC era a que a legislação criada pela oligarquia dominante permitia, era a “usurpação legal”. Trata-se de um atacadista. Com Temer, chegou o baixíssimo clero, os varejistas. Usa-se a usurpação legal e qualquer outra que permita maior acúmulo de rendimentos e posses.
Portanto, graças a Temer, consegui entender o Brasil de 1930 quando Getúlio Vargas assumiu o poder. Como poderia Getúlio fazer o Brasil evoluir rapidamente, estando este ainda na fase da revolução industrial? Assim, não é por acaso que, nos dias de hoje, um empresário propõe uma jornada de trabalho de 80 horas por semana, bem próxima da jornada da época da revolução industrial, 16 horas por dia. Esta jornada gerou um grande número de mutilados devido a acidentes de trabalho. Dormia-se por estafa, durante o trabalho, esquecendo-se a mão embaixo da prensa, por exemplo.
A partir daí, muitas das ações de Getúlio, até então inexplicáveis para a minha pessoa, passam a ser entendidas. Enfim, Temer explicou-me o porquê de Getúlio ter agido com pulso, em muitos casos. O país estava entregue a bandidos. A oligarquia dominante à época, bandida, não se contentava unicamente com a exploração do povo. Estavam dispostos também a entregar riquezas do país a grupos estrangeiros. Assim, associava-se a grupos estrangeiros para ter pequenas participações nos assaltos ao patrimônio público. Getúlio tinha bem em mente, para felicidade nossa, um projeto de nação para o Brasil, que não permitia a participação subalterna do nosso Estado nacional e da sociedade brasileira. Não havia a possibilidade, naquele passado, de se explicar ao povo o que estava acontecendo. Havia dominação da comunicação de massa, aliás, não muito diferente de hoje. Como consequência, havia uma alienação induzida da grande massa, tal qual existe nos dias atuais.
Retornando ao drama atual, Temer está trazendo para o país escuridão análoga ao período da revolução industrial. Assim, trata-se de um obscurantista, incentivador de propostas de massacre da classe trabalhadora e do povo em geral. Conquistas sociais que custaram lutas de muitas gerações que nos antecederam estão sendo perdidas. Imaginem o constrangimento quando tivermos que dizer para nossos filhos e netos: “Pioramos a vida para vocês!” Plagiando JK, o slogan do governo Temer poderia ser: “50 anos (de retrocesso) em dois!”. E o orgulho de ser brasileiro? De possuir uma das empresas que mais descobre petróleo no mundo! De ser um dos países com uma matriz energética invejável pelo pouco uso de combustíveis fósseis! De ter mananciais de água gigantescos! De ser um país miscigenado sem conflitos raciais e religiosos. E mesmo quando levamos em conta o abissal desnível de classes, sem conflitos sociais maiores! Temer se esmera em destruir a nação brasileira, passando por destruir nossa autoestima.
Como na República Velha, o Brasil está ameaçado como nação. Querem nos subordinar à hegemonia externa, quando não seremos mais soberanos. Esta hegemonia quer nos concentrar só em exportadores de minérios e grãos, e importadores de produtos industrializados para a grandeza do Império. Muito no passado, abrimos nossos portos a “nações amigas” e permitimos a remessa do nosso ouro, que acabou por abarrotar os cofres ingleses. Hoje, querem abrir nosso petróleo para “nações amigas” para acarretar o entupimento de cofres alheios. Precisamos, urgentemente, no Brasil de hoje, de um Getúlio, pois ele demonstrou saber soerguer o Brasil. Como a história não se repete, mas os dias atuais podem ter grande semelhança com situações do passado, quem poderia ser o novo Getúlio?
Finalizando, gostaria de dizer o mesmo que muitos dizem na abertura de qualquer discurso. Digo agora, depois de lhes contar um fato. Um juiz de partida de tênis na olimpíada exclamava: “Out!”, como todo bom juiz faz, a cada bola que cai fora da área de jogo. Esta expressão era sempre secundada pelo brado de um torcedor perspicaz: “Temer!”. Concordo com eles: “Out, Temer!

06 agosto 2016

História do golpe

(Veiculado pelo Tijolaço a partir de 05/08/16)

Paulo Metri – conselheiro do Clube de Engenharia

Um dos melhores jornalistas investigativos do Brasil na atualidade, além de grande comunicador, Fernando Brito, afirmou no seu site Tijolaço que, “na venda do campo de petróleo Carcará, a Petrobras perdeu mais dinheiro do que já perdeu com a Lava Jato inteira”. Por outro lado, os detratores do PT afirmam que este partido causou um prejuízo imenso à Petrobras. Sem entrar na discussão sobre este partido ser responsabilizado pelos desvios na estatal, esta empresa está entregando, no período Temer, a preço vil o campo de Carcará para a Statoil. Devemos creditar esta “entrega” a qual partido? Além disso, Carcará não está sendo entregue através de um leilão, procedimento que diminui a possibilidade de roubo. Dúvidas passam pela cabeça de qualquer brasileiro sabedor das desonestidades recentes, do tipo: “Desta vez, quem está roubando e quanto? O preço negociado representa uma doação e sem a existência de leilão!
Lembramos à Statoil que o argumento do preço vil, com todo respeito aos juristas, pode ser utilizado em processo a ser colocado na nossa Justiça, pois nela é prevista esta argumentação. Assim, ela pode vir a acolher o processo. Por outro lado, logo a Statoil, que pertence ao povo norueguês, um dos mais desenvolvidos da face da Terra sob o ponto de vista humanístico, vir a participar da usurpação da riqueza de outro povo é muito estranho. Se fosse a Chevron ou a Exxon, por exemplo, eu não traria este argumento. A Statoil, pelo menos não tem suas perfuratrizes sujas de sangue, como as de muitas petrolíferas privadas internacionais, que carregam o sangue dos povos do Oriente Médio e dos africanos.
Não é porque um governo desonesto, impostor e golpista entrega o que não lhe pertence, dilapidando a riqueza do seu próprio povo, é que o beneficiário da usurpação está livre de ser julgado. Quando este governo sem legitimidade for destituído, seus atos poderão ser revistos. Certamente a revisão das desumanidades será proposta. Não se pode considerar “atos jurídicos perfeitos” aqueles assinados à revelia do povo e para prejudicá-lo. Povo este que é mantido desinformado pelos seus algozes, exatamente para não protestar contra os crimes que lhe afetam.
Está ocorrendo um golpe no Brasil, comprovado pelo butim que ocorre em todos os setores e consume as nossas riquezas, como o Pré-Sal. Pensar que o golpe tem motivação moralista é um ledo engano. Baseado no que Brito identificou, estão roubando e irão roubar mais do que o outro grupo roubou em passado recente. A presidente também não cometeu crime de responsabilidade. Querem tirá-la simplesmente para poderem reconstruir a máquina de assalto ao patrimônio nacional, que já existiu e, por exemplo, entregou a Vale do Rio Doce a preço vil.
A verdade é que os brasileiros vêm sendo explorados, há muitos anos. Pode-se dizer, por exemplo, que a miséria no Brasil é uma doença genética, pois transpassa gerações. Ressalve-se que, em alguns períodos, a luta pela inclusão social é maior do que em outros. Busco identificar qual a causa principal de tanta exclusão, assim como a razão que leva a nossa sociedade a não se rebelar, de forma masoquista, contra o erro sistemático. Além disso, questiono também qual é o principal grupo causador destes erros dentro do conjunto de brasileiros, buscando identificar melhor os responsáveis.
É preciso deixar claro, logo, que as camadas mais humildes da sociedade, o povão, não têm culpa alguma. Ele é mantido desinformado, inclusive para poder apoiar teses que lhe prejudicam e, no entanto, dão grandes lucros para donos do capital. A grande massa, que compõe o nosso povo, não compreende as verdadeiras razões do que está acontecendo e, em alguns casos, nem sabe o que acontece, graças à manipulação midiática. Eles vivem em um mundo criado para não opinarem livremente. Sobre assuntos relevantes de interesse do capital, o povão geralmente tem a mesma opinião que o dono do capital, o que demonstra existir algum erro.
A mídia convencional, aquela que é a mais assistida pelo povão, deve ser compreendida como um instrumento de dominação destas camadas pobres da sociedade pela elite econômica e política. Esta elite da sociedade brasileira, exploradora do povão, é uma figura abjeta. Para poder amealhar mais riqueza e acumular maior poder, ela não tem escrúpulos, manipula mentes divulgando versões mentirosas dos fatos. A classe média pode ser acusada de medrosa, pois, apesar de muitas vezes reconhecer a manipulação, cala-se, conciliando com a elite.
Assim, torna-se compreensível porque a BBC, até hoje, pertence a Estados que compõem o Reino Unido, tendo atravessado inclusive o governo Thatcher. Da mesma forma, existem canais de televisão na França também pertencentes ao Estado. No entanto, nossa televisão é um vergonhoso instrumento privado de dominação da população, sendo uma concessão pública.
Relacionado ao tema, vale lembrar que os Estados Unidos conseguem manter-se como país hegemônico graças a (1) ardiloso uso do discurso de valorização dos princípios democráticos e dos direitos humanos, nem sempre seguidos por seus aliados, (2) controle dos canais internacionais de informação (agências de notícias) e dos canais regionais (mídia tradicional e alternativa de países), (3) ações de inteligência, inclusive para monitorar e abafar reações nacionalistas consideradas como obstáculos à dominação, (4) suporte a suas empresas em nível internacional, (5) controle de organismos multilaterais, (6) diplomacia sem relutância na defesa do acesso a recursos naturais e mercados internos de outros países para as suas empresas, (7) criação de parcerias com oligarquias regionais corruptas e (8) a intervenção armada em alguns países para demonstrar determinação.
Enquanto a nossa elite se compor com forças estrangeiras para espoliar nosso povo, a mídia manipular a grande massa, evitando que ela se indigne, governante de esquerda achar que pode compor em itens substanciais com os donos de capital e os políticos de direita, o Brasil continuará sendo um país subdesenvolvido com desigualdade social e o seu povo continuará sofrendo. A direita domina a sociedade brasileira há 516 anos, com esparsos períodos de menos desigualdade econômica e social. Diferentemente do que ocorre em outros países, a elite brasileira odeia o seu próprio povo e, pelo visto, isto não irá ser revisto só com apelos racionais. Para deixar claro, o povo não é o culpado das injustiças que o fazem sofrer, nem do nosso atraso. O primeiro passo para se reverter o atraso é a democratização da informação para a grande massa.
Consciente deste contexto e com o distanciamento necessário para colocar todos os atores no campo de visão, nota-se um juiz de primeira instância, treinado nos Estados Unidos, com cobertura midiática intensa, determinada pelas mesmas forças externas que dilapidam nosso patrimônio e atrasam nosso desenvolvimento, com discurso moralista embusteiro, já utilizado sem sucesso pela UDN e por Jânio Quadros, com posicionamento claramente parcial, utilizando-se de mal feito de escroques sem partido, que atuam há anos no Estado brasileiro, sem estrutura para ser mais do que é, mostra-se um provinciano.

27 julho 2016

Governo do Mefisto: quando pior é impossível

(Veiculado pelo Viomundo a partir de 27/07/16)

Paulo Metri – conselheiro do Clube de Engenharia

Usando todo o seu arsenal de corrupção, Mefisto conseguiu poder imenso para montar o governo de seus sonhos. Através dele, terá a possibilidade de impor todo o saco de maldades que possui. Para apoderar-se do governo, abusou das bruxarias dos insidiosos comunicadores do capital. Aliás, Mefisto e o capital sempre se deram muito bem. Trocam figurinhas sobre como enganar o povo a cerca das maldades que são perpetradas.
Mefisto, buscando impingir o máximo sofrimento na população mais carente, irá “adequar” ou qualquer outro verbo que eufemisticamente representa “cortar” a dotação do programa de prolongamento da vida com dignidade para os pobres. Por “ter saúde” também representar “ter uma vida digna”, ele já incumbiu seus ministros mefistetes de executar cortes nos programas de saúde.
O gênio do mal se vangloria, em roda pequena, ao retirar direitos trabalhistas e conquistas sociais conseguidos desde o governo Vargas. Mefisto exulta ao reprimir direitos civis, conquistados na Constituição de 1988 e atinge o ápice do prazer ao privatizar órgãos e conceder serviços do Estado.
Mefisto semeia sua erva daninha em todas as áreas. Por exemplo, ele quer um ensino fundamental que forme robôs para o mercado e, não, cidadãos. Acha que a cultura esbanja recursos com a Lei Rouanet. O mefistete da Educação chamou um ator, que é conhecido energúmeno, para dar sugestões sobre a política do seu Ministério.
O Ministério do Desenvolvimento Agrário não é necessário. Negros e mulheres não são bons ministros. Aliás, estes devem ficar enaltecidos por não terem sido chamados para serem Ministros do Mefisto. O próprio já disse que sabe lidar com bandidos, referindo-se, em ato falho, a seus ministros.
Mefisto e a mídia que lhe suporta querem acabar com a universidade pública, com o argumento enganoso que ricos podem pagar e a frequentam. A universidade pública precisa atrair as mentes mais brilhantes da sociedade, não importando se são ricos ou pobres, para dar a eles formação humanitária, que nenhum ente privado consegue dar, para que a elite de pensamento assim formada venha a impactar positivamente nossa sociedade. Creio que nem tudo hoje está perdido em parte devido à existência no país, há anos, de universidades públicas, formando pensadores que se espraiam por diversos locais da sociedade.
Mefisto entrega a maior riqueza nacional, o Pré-Sal, às inimigas da sociedade brasileira, quais sejam, Chevron, Shell, Exxon, BP, Total etc. São nossas inimigas porque promovem ações que representam prejuízo para a nossa sociedade, como ficar com a maior parte da lucratividade do Pré-Sal, não garantir o abastecimento nacional, não priorizar compras e empregos locais, não ter zelo pelo nosso meio ambiente etc.
Mefisto é abrangente, pois não esquece um setor. Aposentados e pensionistas vão ajudar no pagamento de juros aos rentistas, abrindo mão de parte dos seus merecidos aumentos, pois são politicamente frágeis e, assim, não precisam ser atendidos. Se o número de mortes aumentar, devido ao aumento da inanição e da carência de atendimento médico, Mefisto esclarece que se trata dos excluídos por terem nascido em grupo de risco. Nasceram em casebres, ao lado de valas negras, de pais debilitados, com muita fome e em meio à brutalidade. Enfim, segundo ele, deram azar na vida.
Mefisto, sempre ele, quer colocar o Brasil como país subordinado ao atual país hegemônico do mundo, no melhor estilo de “o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”, haja vista o assunto morto e enterrado da base de Alcântara, que está sendo agora ressuscitado.
O Brasil de Mefisto será o das empresas estrangeiras mais os poucos capitais nacionais e os rentistas. Contudo, tudo dourado, bem escamoteado, exemplarmente travestido pela mídia alienante. Mídia psicotrópica, alucinante e desfiguradora da realidade. Carregando um povo ludibriado, perdido, incapacitado de escolher as opções boas para ele próprio.

18 junho 2016

AI-5 da economia

(Veiculado pelo Correio da Cidadania a partir de 17/06/16)

Paulo Metri – conselheiro do Clube de Engenharia e colunista do Correio da Cidadania

Sempre se dissimulou a espoliação das camadas mais pobres, que são as menos conscientes da sociedade. Houve época em que se buscava camuflar a indecência. Sentia-se até vergonha por ser espoliador e, mais ainda, se entreguista fosse. Com a exacerbação da dominação da mídia pelo capital e a conquista de espaço do neoliberalismo, a barreira da consciência se rompeu, o certo virou errado, o bandido um herói, o crítico um bandido, o inflexível um ser errado e a flexibilidade ideológica um valor.
Sobre este ponto, o papa Francisco nos fornece farto material, lembrando que a pobreza não pode ser vista como algo natural. São seus os pensamentos: “Existe uma política, uma sociologia e uma atitude do descarte. Quando já não é o homem, senão o dinheiro, o que ocupa o centro do sistema, quando o dinheiro se transforma em um ídolo, os homens e as mulheres são reduzidos a meros instrumentos de um sistema social e econômico caracterizado, e dominado por profundos desequilíbrios. E assim se “descarta” o que não serve a esta lógica ... Eu diria que não devemos considerar essas coisas como irreversíveis, não devemos nos resignar. Tratemos de construir uma sociedade e uma economia na qual o homem e seu bem, e não o dinheiro, sejam o centro”.
No dia 12/06/16, o Estadão publicou uma entrevista com Edmar Bacha contendo recomendações ao ilegítimo governo Temer, no sentido oposto ao pensamento do papa. Tal a intensidade da destruição de conquistas sociais proposta por Bacha que um amigo sugeriu que ela fosse identificada como um “AI-5 da economia”, através do qual, dentre outros malefícios, a estabilidade do serviço público seria suspensa por 10 ou 20 anos e os atuais prazos para a aposentadoria dos brasileiros seriam modificados.
Realmente, a entrevista lembrou a fala de Jarbas Passarinho na reunião ministerial sobre a edição deste Ato Institucional, quando até Costa e Silva relutava em assiná-lo. Bacha, o Passarinho redivivo, disse na entrevista algo com o sentido de: “Presidente, mande às favas os pruridos de consciência”.
O interessante é que a proposta de Bacha coloca a sociedade brasileira para pagar impostos que vão gerar superávits primários, que servem para pagar juros para os rentistas. Não passa pela sua cabeça ações que diminuam o valor da dívida e, consequentemente, os juros a serem pagos. Por exemplo, canalizar parte da extrema lucratividade que a exploração do Pré-Sal oferecerá para o pagamento de parte desta dívida, o que fará diminuir a necessidade de rolagem da mesma. É possível que esta ação não esteja sendo considerada porque os lucros do Pré-Sal estão reservados para as petrolíferas estrangeiras.
Mas Bacha foi somente um dos lançadores do balão de ensaio para medir a reação da sociedade. O governo interino recém colocou uma PEC, como proposta do Ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, no Congresso com recomendação de urgência, que cria teto para os gastos federais por nove anos. Assim, Educação e Saúde sofrerão cortes nestes anos. Desconfio que os juros da dívida permanecerão intactos. Além disso, as universidades públicas e o SUS passarão a cobrar, acabando com o princípio de educação e atendimento de saúde universais.
Atualmente, sabe-se exatamente porque houve a abertura do processo de impeachment da presidente Dilma. O presidente interino tinha duas incumbências ao chegar à Presidência. Paralisar a Lava Jato, que já havia criminalizado quem era de interesse, os integrantes do PT, e não mais poderia atingir os dos outros partidos. E começar a mudança radical da economia do país, na direção ao que Bacha descreveu, incluindo uma abertura descomunal da nossa economia para o capital estrangeiro.
Assim, o projeto de José Serra para entrega do Pré-Sal foi colocado como prioritário. A musa das privatizações do governo FHC, Elena Landau, já é cotada para coordenar as privatizações de Furnas, Chesf e Eletronorte. A Medida Provisória 727 pede um “cheque em branco” do Congresso Nacional para o Executivo colocar no Programa de Parcerias de Investimento (PPI) qualquer empreendimento planejado, em desenvolvimento ou concluído, para ser privatizado ou concedido. Portos, aeroportos e outros empreendimentos de infraestrutura estão na lista. Nem o setor nuclear escapou, pois uma PEC para o término do monopólio estatal no setor, de interesse de empresas estrangeiras, que adormecia há nove anos na Câmara, foi em maio passado aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça.
Temer vai mexer nas regras da aposentadoria, dificultando o trabalhador a ter o descanso merecido. A mídia alternativa teve seus subsídios cortados, enquanto os jornalões continuam tendo apoio garantido. O novo ministro das Minas e Energia despudoradamente diz que é preciso adotar nova regra para o conteúdo local para “dar tranquilidade aos investidores nos próximos leilões de petróleo”.
As petrolíferas estrangeiras, sabedoras da subserviência do governo interino, acrescentam a reivindicação do Repetro ser estendido por mais anos. O interessante é que elas se colocam na posição de salvadoras da economia brasileira, e não na de usurpadoras da riqueza alheia, obviamente com a anuência de seus representantes no atual governo brasileiro.
Complementando, o PT não irá receber parcelas do fundo partidário e há um plano para a Empresa Brasileira de Comunicação ser extinta. Os que tomaram o poder de assalto estupraram a democracia e, não contentes, estão acabando com os resquícios de um Estado socialmente comprometido. Se existiram pruridos de consciência algum dia, eles já foram remetidos certamente às favas.

14 junho 2016

Novo modelo ameaça entregar o setor nuclear ao mercado

Entrevista com Paulo Metri, conselheiro do Clube de Engenharia

O setor nuclear ganhou destaque nas últimas semanas no Congresso Nacional. A Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 122/07 do deputado federal Alfredo Kaefer (PSDB-PR) e a PEC nº 41/2011, do deputado Carlos Sampaio (PSDB/SP), apensada à primeira, receberam, no dia 12 de maio parecer favorável do relator da Comissão de Constituição e Justiça e Cidadania, onde tramitaram por longos nove anos, entre arquivamentos e desarquivamentos. O texto de ambas as propostas encaminhado pelo relator Sergio Souza (PMDB-PR) e que chegará ao plenário em breve visa modificar a Constituição Federal, pondo fim ao monopólio da União na construção e operação de reatores nucleares para geração de energia elétrica.

A PEC 122/07 pode inaugurar um novo tempo para o setor, agora com pesada participação estrangeira e sem reflexos no desenvolvimento nacional. Em entrevista ao Portal do Clube de Engenharia, o conselheiro Paulo Metri analisa os impactos que tais mudanças poderão trazer para o país.

O que a PEC 122 representa de fato para o setor nuclear nacional?
O deputado federal Alfredo Kaefer, do PSDB do Paraná, apresentou em 2007 a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) no 122, que visa modificar os artigos 21 e 177 da nossa Constituição para excluir do monopólio da União a construção, operação e, implicitamente, a posse de reatores nucleares para fins de geração de energia elétrica. Hoje, só a empresa estatal Eletronuclear possui, constrói e opera no setor. Salvo engano, esta proposta será submetida brevemente à votação do plenário e pode ser aprovada sem grande debate. Na verdade, está se falando da permissão de entrada de empresas estrangeiras na geração nucleoelétrica no país.

Mas o texto da PEC determina a atuação de empresas nacionais no setor...
Não existe a possibilidade de uma empresa privada genuinamente nacional vir a ter esta atividade, por causa do porte e experiência requeridos. Podem até camuflar a entrada das empresas estrangeiras no setor, colocando empresas privadas nacionais genuínas na fachada, mas estas serão somente testas-de-ferro. É preciso diferenciar a assistência técnica externa dada a empresa brasileira, como é o caso da Areva, que assiste a Eletronuclear, do uso de uma empresa brasileira sem competência no setor como testa-de-ferro. Então, na prática, o modelo do setor proposto nesta PEC é o do convívio de subsidiárias das empresas nucleares estrangeiras com a única brasileira de porte e tradição, a Eletronuclear, que já possui Angra I, II e III.

Por que é importante manter a construção, manutenção e operação de usinas nucleares na mão do Estado, como hoje determina a Constituição?
As empresas estrangeiras não irão querer ter no Brasil todas as atividades de projeto, construção, fabricação de equipamentos e montagem das usinas. Seguramente, vão trazer o projeto e os equipamentos do exterior. A construção e a montagem podem vir a ser contratadas com empresas brasileiras, mas elas poderão também forçar para que construtoras e montadoras estrangeiras entrem aqui. Quanto ao ciclo, a proposta do deputado não menciona nada, mas elas irão importar, certamente, elementos combustíveis, o que maximizará a operação de suas unidades industriais no exterior. Não se pode esquecer que, além da obrigação de oferecer energia elétrica, a mais segura e barata possível, para a sociedade, outros objetivos do Estado são o de maximizar a geração de emprego e renda no Brasil, que estão incluídos na maximização das compras locais. Assim, este critério é muito melhor satisfeito pela Eletronuclear.

Há um mercado de produtos e serviços nucleares no mundo no qual o Brasil poderia se inserir em um futuro próximo. As mudanças propostas pela PEC podem impactar essa participação?
Com a introdução do novo modelo no Brasil, o país fica impedido de participar da parcela do mercado de produtos e serviços nucleares no mundo, permitida pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). Isso porque as subsidiárias estrangeiras aqui sediadas não irão participar de concorrências em outros países, por falta de interesse das matrizes de usar suas subsidiárias. Além disso, o lucro de uma eventual exportação não ficaria no país. O Brasil poderia tentar entrar, no futuro, com o consórcio Eletronuclear, Nuclep e INB, assistido pela Areva. Esta possibilidade futura está sendo negada com a introdução, hoje, do novo modelo, além do nível de desenvolvimento tecnológico dominado pelo país no setor vir a regredir.

Ainda em relação aos interesses e às práticas de matrizes e subsidiárias, há outras perdas?
Sim. O total das remessas de lucros e valores de assistência técnica para o exterior é superior no caso da adoção do modelo alienígena. A diferença entre os valores do modelo estatal e nacional e do modelo estrangeiro representa o montante que não será remetido para o exterior e será reinvestido no país.

Um ponto que sempre vem à tona em debates sobre a geração energética nuclear é a segurança. A abertura do setor à iniciativa privada colabora com a segurança no setor?

Na verdade, a construção e a operação privada de uma usina nuclear traz à tona o célebre conflito entre lucratividade e segurança. Sabe-se que, com o acréscimo de medidas de segurança, mais caro fica o investimento da usina. A iniciativa privada visa ter o máximo lucro, dentro de uma atuação segura da sua atividade. Contudo, é omitido que existem diferentes graus de segurança para qualquer empreendimento e, a cada aumento da segurança, existe um investimento adicional, que aumenta o investimento total. Também a escolha do grau de segurança a ser adotado em um empreendimento é uma decisão que leva em conta o impacto na lucratividade, e ninguém pode dizer, com certeza, qual é o grau mínimo de segurança suficiente. Desta forma, pode-se dizer que a construção e a operação de usinas nucleares diretamente pelo Estado podem resultar em usinas mais seguras, à medida que o Estado não procura a maximização do lucro.

A PEC prevê a criação de uma agência que regularia o setor. Essa agência não seria suficiente para garantir que as empresas privadas atendessem não só aos critérios de segurança, como também aos interesses da população?
Esse é um contra-argumento bastante utilizado. Há quem diga que existindo o ente do Estado fiscalizador da segurança nuclear, atualmente a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), a segurança estará garantida. Entretanto, algumas das maiores agências reguladoras do país, a ANP, a ANEEL e a ANATEL, que fiscalizam setores abertos ao capital externo, são exemplos de agências dominadas pelas próprias empresas reguladas. A ANP já colocou mais de 1.000 blocos do território nacional em leilão para a busca de petróleo, atividade esta de pouco valor para a sociedade e de grande valor para as empresas estrangeiras. A ANEEL deixou as concessionárias cobrarem a mais dos consumidores por cerca de 10 anos. A ANATEL deixa o Brasil ter uma das maiores tarifas de telefonia do mundo, em flagrante ação de cartel das operadoras.

Caso a PEC passe, qual será a última trincheira de resistência?
Se passar, conto com a direção e o corpo técnico da CNEN, ou da Agência que venha a ser criada, para oferecer resistência aos assédios de cooptação do setor privado, que com certeza irão existir, uma vez que virão junto com este novo modelo.

Fonte: http://portalclubedeengenharia.org.br/info/novo-modelo-ameaca-entregar-o-setor-nuclear-ao-mercado